Viu na televisão o “Natal do Soldado” e achou ridícula
a repetição do “nós por cá todos bem” e “um ano novo
cheio de prosperidades”, até lhe deu para rir com os que queriam
um ano cheio de propriedades. Riram todos lá em casa
também. O pai garantia que os que regressavam da guerra
diziam que não tinham tido lá Natal nenhum, que as gajas
do Movimento Nacional Feminino é que vinham com essa
treta. No Natal, diziam-no os que tinham lá estado, recebiam
um maço de cigarros, uma carteira de plástico, das de vinte e
cinco tostões, e uma ou duas sandes. Para tanto folclore era
ridículo, de facto. Mas essas gajas e os mandões todos andam
à grande e à francesa de automóvel, explicava o pai. Pensou
que havia de ter tempo para saber se era assim.
O pai, por estar já há muitos anos em Lisboa, perdeu um
bocado do sotaque alentejano mas usava as mesmas expressões
lá da terra e achava-lhe piada por isso.
– “Esses filhos dum cabrão deviam era ver esta miséria
que a gente come.”
E espetava o garfo na massa com grão onde se escondia
uma lasca de bacalhau.
Assomaram umas lágrimas aos olhos da mãe.
– “A culpa é da guerra, e eu ando apoquentada porque
os meus filhos ainda vão lá parar.”
O pai ficou sério e baixou a cabeça para meter uma garfada
à boca. O irmão não dizia nada, porque sempre que
falava era sempre sobre o Tarujense, onde era guarda-redes,
ou sobre as partidas de bilhar que disputava no salão do Jardim
Cinema. A guerra não lhe dizia nada. Era mais novo
dois anos e ainda não lhe dava para pensar nisso.
– “Felizmente o Antero já está livre disso.”
A irmã não sorriu mas tinha os olhos brilhantes de satisfação.
Era verdade que o namorado dela, mais velho que ele
uns três anos, já tinha feito a tropa como escriturário no
Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, em Campo de
Ourique. Já saíra sem ir para o Ultramar.
O pai abanou a cabeça.
– “Não sei, rapariga, não sei.”
Ela ficou séria e os olhos sem brilho:
– “O que é que o pai quer dizer com isso?”
– “Sabes lá ele se não vai lá parar. Se esta porra continuar
vai como os outros. A miséria já existia antes da guerra e a
guerra é para a miséria continuar porque interessa aos ricos.
Eles é que mandam e querem que ela continue.”
A mãe pôs as mãos ao peito.
– “Credo, homem, não digas isso que ainda me afliges
mais.”
Mas ele não ligou.
– “Vocês já são crescidos mas parece que não se lembram
da miséria que têm passado desde que nasceram.”
– “Mas agora estamos melhor, até temos uma casa só
para nós.”
O irmão abrira o bico, mas levou logo.
– “Uma casa uma merda. Nem a porra duma retrete
temos quando nos vamos agachar. E estás aqui porque tu e
os teus irmãos trabalham em vez de andarem na escola, e eu
nunca tive férias porque vou no verão trabalhar com tractores
lá prós montes daquele cabrão de Ervidel. Se não fosse
isso ainda estavas numa parte de casa.”
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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