Passados três meses, quando a instrução acabou, continuaram
no RI1 para o IAO. Foi quando o capitão disse que
já estava assente que a companhia ia para a Guiné.
No dia desse anúncio, depois de jantar decidiu apanhar
um comboio para Lisboa. Não havia nada que fazer nessa
noite e não lhe apeteceu nada ficar no quartel. Os outros perguntaram-
lhe se ia pirar-se. Não reparou se era a sério ou a
brincar.
– “Não me vou pirar, não. Não vos ia abandonar. Vou só
dar aos meus velhotes esta boa notícia da Guiné.”
Quando chegou a casa ficou a saber que a cautela que o
tipo do Maxime lhe tinha oferecido tinha dado dois contos
e quinhentos. Estavam contentes, era dinheiro muito bem-
-vindo. Mas as coisas mudaram quando lhes disse que ia para
a Guiné. O pai ficou calado e preocupado, a mãe e a irmã
choraram. Não aguentou e disse que tinha de ir ter com uns
amigos da tropa.
Foi pela Rua D. Pedro V até ao Largo da Misericórdia e
meteu-se pela Travessa da Queimada. Entrou no primeiro
Sentou-se ao balcão perto de um homem que lá estava.
– “Dá-me licença que me sente aqui?”
– “Faz favor”
– “Obrigado. Um gin tónico”, pediu ao barman.
Não era a primeira vez que ali vinha, mas não se lembrava
do nome, nem vira o placard da entrada. Podia divagar
a partir dele, da sua configuração interna, daquilo que se via
através dos seus frequentadores, do mundo que encerrava em
si e fora de si. Mas não interessava, os seus pensamentos estavam
longe dali.
– “Olhe. Mais outro gin tónico.”
Afinal achava que sim. Era importante o nome das coisas,
dos seres, dos lugares Os nomes têm muito a ver com a
natureza das coisas, dos seres e do seu ambiente. Quem diz
rosa sente tudo o que a rosa é, o cheiro, as pétalas coloridas, o
redondo belo. Quando se fala no Marquês todos sabem que é
a praça onde está o Marquês de Pombal com o leão a tiracolo.
Não. Está aos pés, é verdade. Mas faz tanto parte dele que é
como se o tivesse a tiracolo. E mulher? Mulher é amor, seios,
pernas, ancas, sexo. Os nomes não são unicamente nomes,
são coisas concretas. Quando se profere um nome tem-se
automaticamente um retrato, uma vivência e um conjunto
de características que só se conseguiriam descrever em frases
mais ou menos extensas, mais ou menos difíceis de explicar.
O nome é a síntese que se tem de tudo isso.
– “Mais um.” Levantou o copo mas o barman não viu e
teve de bater no copo com a garrafa.
– “Mais um gin tónico.”
Dar nomes economiza explicações. Aquela mulher é
linda como uma flor, os bidonvilles de Champigny são piores
que o Casal Ventoso diz tudo, sem mais explicações. E
Guiné? Diz tudo também. Terra longínqua de guerra, mortos
e feridos. E se à flor se chamasse outro nome? Por exemplo
esterco ou trampa. E se à trampa se chamasse rosa? E se à
Guiné se chamasse Portugal? Estávamos a introduzir aberrações
no nosso código de entendimento, subverteríamos esse
código.
– “Traga mais um, se faz favor.”
– “Sente-se bem? Já vai no quarto… Não quer comer
nada?”, perguntou o homem do lado.
– “Não, já jantei. Mas tem razão. Traga-me antes um
whisky com duas pedrinhas de gelo”, disse ao barman.
O homem não dissera nada até ali e ele ficou na dúvida
se estivera a falar para ele ou se tinha estado só a pensar.
– “Sabe o que quer dizer Guiné?”, perguntou-lhe encarando-
o. “Guiné quer dizer mortos e estropiados.”
Não teve resposta nem comentários e foi bebendo o
whisky.
– “Tenho de ir andando, tenho de voltar ao quartel na
Amadora”, disse quando terminou e chamou o barman para
pagar.
– “Não quer que o ajude? Tenho aí carro e posso levá-lo”,
ofereceu-se o homem do lado.
– “Não, obrigado. Estou como o aço. Dentro de alguns
dias até vou embarcar para a Guiné, está a ver? Gosto em
conhecê-lo. Adeus até ao meu regresso. Não se ria, senão
choro.” Levantou-se e caiu no chão.
Deu por si ao sentir que o abanavam. Estava deitado no
banco traseiro de um carro estacionado perto da porta do
quartel.
– “Já está melhor?”
Soergueu-se e abriu os olhos. Deu de caras com o seu
companheiro silencioso do bar.
208
João Gaspar Carrasqueira
– “Deitei-o aí para você dormir e ver se lhe passava.
Mas olhe que me vi um bocado atrapalhado. Se não fosse o
empregado do bar ajudar-me não sei se conseguia tirá-lo de
lá.”
Aiveca apercebeu-se da situação e ficou envergonhado.
– “Que chatice. Peço muita desculpa.”
– “Não tem nada que pedir desculpa. Já estamos perto
do quartel mas deixe-se ficar aí um bocado e beba água para
ver se dilui essa carga”, e estendeu-lhe uma garrafa de água.
“Nada mau que não me vomitou o carro.”
– “Tenho mesmo que lhe pedir desculpa. Tinha vindo
de casa dos meus pais e deixei-os a chorar depois de lhes ter
dito que ia para a Guiné. Estava um bocado desorientado
mas não devia ter bebido tanto.”
– “Eu sei como é isso. Infelizmente sei”, a voz embargou-
-se-lhe”, um dos meus irmãos, era o mais novo, morreu em
Angola”.
Fez uma pausa e Aiveca olhou para ele, pesaroso.
– “Antes de embarcar também andou muito em baixo”,
continuava com a voz embargada. “Quando você se sentou
ao meu lado vi logo que não estava bem, era tal e qual como
estava o meu irmão. A sua conversa ainda mais me convenceu
disso.”
– “Mas eu estive a falar?”. Viu que ele tinha ficado admirado.
“Desculpe a pergunta. É que eu, a certa altura, não
sabia se estava a falar para alguém ou para mim próprio, cheguei
a julgar que estava só com os meus pensamentos.”
– “Falou e falou muito, pode ter a certeza. Achei por
bem não interrompê-lo e deixá-lo falar à vontade. É o melhor
quando as pessoas estão assim. Ainda bem que só estávamos
os dois ao balcão. Se estivesse mais alguém podia haver problemas,
é que há pessoas que gostam de se meter e, às vezes,
não da melhor maneira. Até o homem do bar estava atento
à sua conversa mas só ouvia. Esse pessoal já tem muita experiência
de coisas destas e, normalmente, está calado.”
Parou uns momentos.
– “Acha que já pode andar?”
- “Já, acho que sim.”
Abriu a porta do carro e saiu. Sentiu a cabeça um bocado
azamboada e encostou-se.
– “É melhor eu ir consigo até à porta, é mais seguro”,
disse o outro, já fora do carro também.
Aceitou, porque sentiu que não estava muito seguro.
– “Tem aqui o meu cartão. Quando puder gostava de
falar consigo. Noutras circunstâncias, claro”, o homem estendeu-
lhe um cartão-de-visita.
Aiveca olhou para o homem. Ainda conseguiu perceber
o que ele dizia.
– “Com todo o gosto”, disse, guardando o cartão.
– “Deixe-me eu falar agora. É melhor para não se aperceberem
de qualquer estranheza”, aconselhou o homem
quando ele, a custo, tocou à campainha.
Abanou a cabeça várias vezes a dizer que sim. Um soldado
abriu a porta e mirou-os interrogativamente.
– “Eu chamo-me Rogério Dores e sou médico. Encontrei
este militar que se estava a sentir mal, tive de o assistir.
Como já está melhor vim trazê-lo ao quartel.”
Aiveca abriu os olhos de espanto. O soldado ficou calado
uns segundos.
– “Ó meu sargento!”, gritou virando a cabeça para trás.
Apareceu o Sargento de Dia e o médico repetiu-lhe o
que dissera ao soldado.
– “Vai chamar o Oficial de Dia”, disse o sargento ao soldado.
– “Eu sei quem é. É um dos aspirantes da companhia
que está aqui para o IAO. Obrigado, doutor.”
Era o tenente que estava de dia com expressão irónica
nos olhos depois de ouvir a mesma explicação.
– “Muito obrigado, senhor doutor”, e Aiveca apertou-
-lhe a mão efusivamente antes de fecharem a porta.
– “Vai-te lá deitar, pá”, disse-lhe o tenente virando-se,
depois, para o soldado: “Acompanha o nosso aspirante aos
quartos dos oficiais”, ordenou-lhe.
O soldado levou-o à zona dos quartos dos oficiais. Não
estava nas melhores condições mas conseguiu acertar com o
quarto dos aspirantes da companhia. Os outros já lá estavam
e dormiam. Deitou-se na cama vazia sem se despir e adormeceu
passados poucos minutos.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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