Cabra-cega, por João Gaspar Carrasqueira (2)
Beja Santos
“Cabra-Cega, Do
seminário para a guerra colonial”, por João Gaspar Carrasqueira, Chiadora
Editora, 2015, é uma incursão singular na literatura na guerra da Guiné, pelas
seguintes razões: assistimos à formação da mentalidade de um seminarista,
trata-se de um jovem manifestamente sem educação, que cumpre a vontade dos
pais, gente humilde que anseia ver um filho em cargos dignos e sem precisões
materiais; aos 20 anos, o jovem declara firmemente que não quer participar
nesse embuste, abandona o seminário, trabalha e faz o 7º ano; vem o chamamento
para o curso de oficiais milicianos, integra-se numa companhia de atiradores e
parte para a Guiné, onde será ferido em combate, não sem antes ter vivido
riscos e peripécias como andar sozinho à procura do caminho do regresso, depois
da debandada dos seus homens. Dá para perceber que João Gaspar Carrasqueira é o
pseudónimo de alguém que se quer camuflar, a carpintaria literária não ilude
que estamos perante uma narrativa confessional e não de um Carrasqueira que
recebeu a incumbência de António Aiveca, o forjado protagonista de toda esta
trama. E a singularidade extravasa para os ingredientes da narrativa: as
conversas entre aqueles quatro alferes da companhia de atiradores espelham a
sério mentalidades e atitudes daqueles jovens, a linguagem é crua, aquele calão
era o traço de unidade, a forma de comunicação na caserna e na parada. Em suma,
um livro convincente, íntimo, um jovem transformado em joguete do destino, com
os seus momentos de desencanto, de amargor, a arrancar das vistas a vontade de
sobrevivência.
Numa patrulha de
reconhecimento, depois de um tiroteio, vê-se só, os seus retiraram, fazendo das
fraquezas forças, serena e põe-se ao caminho, a ouvir as vozes dos
guerrilheiros, no seu encalço. Acachapa-se durante a noite, procura
orientar-se, ouve outras vozes, julga tratar-se de uma tabanca próxima, o corpo
falece: “A pele das mãos estava toda encarquilhada pelo contacto com a água. O
mesmo devia suceder-se com os pés, devia ter todo mirrado e encolhido. Sentia nas
mãos, nos braços e pelo corpo toda uma imensa comichão. Estava cheia de bolhas
e ampolas, só as via nos braços e nas mãos mas devia estar por todo o corpo.
Muito tempo esteve a sentir-se um nojo completo, sobretudo uma merda da cintura
para baixo, uma presa para os mosquitos e as moscas”. E então surge uma
luminosidade por detrás das palmeiras, uma neblina leitosa a empastar a
bolanha. Procurou um caminho para o rio, atravessou-o, e depois de muito
caminhar chegou a uma tabanca amiga. Para sua surpresa, desconfiarão do que
andou a fazer. O coronel de Bafatá queria todas as informações, António Aiveca
tinha sido um instrumento da Operação Cabra-cega para confirmar a existência de
uma base terrorista.
A vida operacional
prossegue, algo mudou nas relações entre o comandante de companhia e António
Aiveca. Nunca saberemos em concreto onde se situam estes teatros de operações,
a única referência dada é de que estamos no centro da Guiné. Os comandos, em
Bafatá, exigem uma mentalidade ofensiva, e o inimigo dá réplica. Numa dessas
operações, entram numa base e António Aiveca dá consigo a entrar numa escola
onde a professora lhe faz frente com uma arma, o alferes liquida-a. O nome da
professora, Abess, nunca mais lhe sairá do pensamento. Já leva quatro meses de
Guiné, sempre em bolandas até que a morte do capitão Mendonça e o seu ferimento
irão brutalmente o curso dos acontecimento. Os picadores tinham detetado uma
mina anticarro, Mendonça queria apanhá-la, estava excitado, queria ser ele
próprio a levantá-la, e a tragédia irrompeu em cena:
“O trovão e a faísca
rápidos que o lançaram no vazio, sem passado nem presente, nem nada pela
frente. Não sentiu dor ou sofrimento, não teve qualquer pensamento. Era a forma
rápida de sair da vida para o nada.
Não soube nem deixou de
saber o que se passara, não soube se morrera ou se ficara ferido, não soube se
foi para o inferno ou para o céu, não viu o velho das barbas nem o cornudo de
rabo comprido. Houve momentos em que não existiu.
Levantou-se e viu ao pé
o capitão também deitado. Não se mexia, a farda tinha desaparecido quase toda,
a perna direita estava pegado ao joelho por uma tira de pele, os testículos
estavam desfeitos”.
E ele deitava sangue
dos ouvidos, é evacuado para Bissau e daqui para Lisboa. Vão ser meses de
dormência, está em tratamento, é como se vivesse em estado intermédio, a guerra
não acabou, retoma a vida noturna, os ouvidos lembram-lhe que a sua vida mudou:
“Passou todas as
segundas, quartas e sextas de manhã no Hospital Militar. Foi tira penso e mete
penso nas feridas que tinha dos estilhaços. Mas o pior era o esgravatar
doloroso em que se empenhavam nos ouvidos, despejando depois para dentro deles
uma porcaria que não via, mas que pareciam torrentes de água, umas vezes quente
outra fria, a penetrar por toda a cabeça e pescoço. Saía sempre atordoado e,
quando na rua, o ruído dos carros que passavam, e até os seus próprios passos,
ribombavam-lhe na cabeça como trovões”.
Passa as tardes no
cinema, as noites na ramboia. Começa-se a encontrar com Norberto, um camarada
que se descobriu que é hemofílico e também revolucionário e que procura
atraí-lo para a subversão. Ao fim de oito meses comparece numa junta médica, é
dado como apto para todo o serviço, vai regressar à Guiné, fica colocado no
Depósito Geral de Adidos. Informado que um dos seus soldados, de nome Gabriel,
está no anexo do Hospital Militar, em Campolide, vai visitá-lo. A descrição é
devastadora:
“À medida que ia
andando, espreitava para os quartos e camaratas. O que via deixava-o
estarrecido e sem fala, não havia palavras perante tal panorama. Viu homens sem
pernas, outros sem braços, uns cegos e, destes, alguns sem mãos ou sem braços
também”. Enquanto ouve o que Gabriel tem para lhe contar vai olhando à volta e
conversa com gente esfacelada, estropiada, ouve relatos pungentes. Recebe uma
guia de marcha para embarcar no Uíge. Desembarcado em Bissau, apresenta-se na
Repartição de Pessoal do Quartel General. Um capitão informa-o: “Você vai ser
colocado numa companhia do recrutamento da Província que está lá em cima, ao pé
do Senegal”.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/

Sem comentários:
Enviar um comentário