segunda-feira, 22 de junho de 2015

Em Agosto começaram as férias. Muitos rapazes foram
passá-las com a família, aqueles que a tinham. Mas uma
parte, por serem órfãos ou abandonados, ficaram no colégio.
Para estes houve vários programas. Visitas ao Sameiro,
a Viana do Castelo, ao monte de Santa Luzia e outras, e
também passar uns dias na Granja. Aqui havia várias vivendas
bonitas e quintas de gente rica. Era onde a burguesia do
Porto passava os seus lazeres. Foi um desses ricos, um dos
benfeitores do colégio, que ofereceu uma casa situada perto
de um matagal para os pobrezinhos terem uns dias de férias e
puderem ir à praia. Já tinha a experiência dessas benfeitorias
quando estava no seminário menor e na Filosofia, e acabara
por perceber que aos padres faziam muito jeito. Só lhe causava
espécie a submissão que estes demonstravam para com
os ricos. Muito diferente da hierarquização que aprendera
na escola e que os manuais da instrução primária retratavam:
clero, nobreza e povo. Alterara-se a escala social. A nobreza
eram, agora, estes donos e senhores de casarões e automóveis,
cheios de dinheiro, e que o clero agora reverenciava. O povo
continuava a ser povo, sempre no fundo. Eram estes miúdos,
e ele também, filhos de pobres sem nada, vassalos às ordens
do clero agora submisso da nova nobreza, a burguesia.
Só o padre Neto, ele e o Jaime é que foram com os
rapazes. O Director e os outros padres ficaram no colégio
e o Cunha foi passar uns dias à aldeia onde os pais viviam.
Ao Jaime não dava para ir a Cabo Verde. Por ele, Aiveca, se
tivesse uma aldeia também teria ido para lá, seria melhor.
Mas não tinha já, até a avó Rosário já tinha morrido, e não
teve vontade nenhuma de regressar àquela parte de casa do
bairro de Lisboa.
Quando chegaram, disse o padre Neto:
– “Esta quinta é do senhor engenheiro Campos. É um
homem bom e nosso grande benfeitor. Digam aos rapazes
para terem muito respeitinho, pois sem esta benesse não
teriam possibilidades de ter praia e gozar destes ares do
campo. Que não estraguem nada e o cumprimentem sempre
com muito respeito. Vocês os dois vão tomar conta deles,
vão com eles à praia, só à beira mar, e dar uns passeios pelos
campos aqui à volta. E tenham cuidado não os deixem entrar
muito na água.”
– “Tá bem”, aceitaram.

O padre Neto almoçava e jantava com o engenheiro e
a mulher deste, e era uma empregada do dono da casa que
distribuía as refeições aos outros. Para a praia, que ainda era
um bocado longe, iam a pé, mas o padre ia com o engenheiro
e a mulher deste de automóvel. E os passeios pelos arredores
com os rapazes era só ele e o Jaime que os faziam. Passados
alguns dias começou a ficar cansado e a não lhe agradar a
situação.
– “Ó Jaime, estou a ficar farto disto.”
Estavam os dois sentados ao sol a olhar para os miúdos
que brincavam à borda da água.
– “Mas porquê, pá? Isto até nem é nada mau.”
– “Estou cansado destas caminhadas aqui à volta e do ir
e vir para a praia. E este sol dá cabo de mim, não aguento.”
Apontou para o padre e o casal.
– “Enquanto nós estamos aqui a estorricar o Neto e
aqueles gajos estão debaixo de um guarda-sol. Não dá.”
Não lhe disse que não sabia nadar nem lhe falou de
outras coisas que o estavam a perturbar.
– “Não estás habituado. No Monte Pelado da ilha do
Fogo, na minha terra, o que há mais é sol, chuva só quando
o rei faz anos. E caminhadas é o pão nosso de cada dia, que
remédio, porque não há transportes nenhuns. Já estou habituado.”
– “Tudo bem, mas eu não. Estive no Alentejo quando era
miúdo mas não andei em caminhadas nem à torreira do sol,
embora lá haja muito também. Olha lá, achas que te aguentas
sozinho com os catraios? É que eu estou a pensar dizer
ao Neto que não aguento e me quero ir embora, mas não te
queria causar problemas. Se achares que não vais poder ficar
sozinho diz-me que eu arranjarei maneira de me baldar algumas
vezes e não me vou embora.”
– “É pá, por mim está à vontade. Os miúdos até nem
são muitos e tanto faz estar um como estarem dois com eles.
Mas olha que me parece que o Neto é que não vai estar pelos
ajustes.”
– “Tem de estar. Já que não te importas, quando chegarmos
à quinta vou falar com ele.”
– “Vai. Sem problemas para mim. Olha, vou dar um
mergulho.”
Levantou-se e saiu disparado para ao pé da água com os
putos a fazer grande algazarra à volta dele.
Ao jantar, estavam os dois a comer juntamente com os
rapazes, perguntou-lhe o Jaime:
– “Já falaste com o Neto?”
– “Já. O gajo não gostou nada, barafustou como é que ia
ser, e disse que ia telefonar ao padre Rolando para ver se ele
deixava. Voltou depois para me dizer que o padre Rolando
tinha dado autorização.”
– “Boa. E como é que vais?”
– “Ele deu-me dinheiro para a camioneta e vou já amanhã,
logo de manhã. Fico é preocupado com o trabalho que
vais ter.”
– “Não vou ter nada, já te disse. Além disso, se for preciso
aperto com o Neto para ele fazer alguma coisa também.
Tá descansado.”
«Já é noite. Estou a escrever na cama. Oiço o rádio do
quarto do lado onde está o Jaime. No fundo, invejo-lhe o carácter
mais descontraído do que o meu. A mim não me dá para
ouvir música. Aqui, na solidão do meu quarto, prefiro falar
com o meu amigo íntimo, o amigo que sabe os meus desejos, o
meu caderno. Há dias que estou na Granja. Amanhã voltarei
para o Porto. Gostaria de passar aqui as férias, mas não nestas
condições. Estas caminhadas deixam-me cansado e exausto. A
praia causa-me dores terríveis na cabeça. Às vezes, tenho de lhe
pôr a mão, pois parece querer estalar. Desforro-me, então, nas
aspirinas e saridons.
Mas não é tanto por causa do sol como disse ao Jaime. Não
lhe quis dizer porque não sei se ele iria entender, nunca deu
para falar das razões por que também ele foi enviado antecipadamente
para o colégio. O que ando é chateado por ver todos os
homens andarem de calções de banho e eu de calças arregaçadas
e de camisa. E as mulheres de fato de banho, meu Deus!, são a
visão do impossível para mim, deixam-me doente.»
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/

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