Passados cinco anos mudaram-no desse seminário para
outro, o maior. Foi o Noviciado e depois a Filosofia. Tinha
dezasseis anos, era já um adolescente e aí tudo se foi tornando
complicado.
O Noviciado é o tempo em que os noviços conhecem
as Regras, vêem se aguentam, e em que os padres vêem se
eles têm aptidões. Foi-se confrontando amargamente com o
que já Proust verificara: que a sua personalidade estava a ser
criada por um pensamento alheio. Isto é, tinha de ser aquilo
que eles queriam ver e não o que ele era realmente. Sabia que
tinha de ser assim se aceitasse, mas foi-lhe custando.
O Noviciado era dirigido pelo Padre Mestre, que falava
das Regras. Havia outros para Religião, Evangelhos, Liturgia,
Cerimónias, Português, Grego, Latim, Caligrafia e Italiano.
Todos os dias da semana, menos aos domingos. Isso
tudo bem, até achava ensinamentos úteis. E havia o mesmo
que no outro: missa todos os dias, reza do terço ao fim da
tarde, duas missas aos domingos, confissão semanal.
Mas o pior foram as chamadas “conferências” que o
Padre Mestre dava todos os dias, palestras que eram autênticas
massagens ao cérebro. Tomara nota delas todas no
“caderno de apontamentos”. Lá não havia “caderno diário”
como no seminário menor. Algumas destas frases davam-lhe,
agora, vontade de rir.
«Quem não fizer penitência morrerá. Há duas espécies
de mortificação: a interna, a principal, que é a da vontade, do
génio, das paixões; e a externa, a dos olhos e do tacto.”
Era o que faltava não sentir e ver o que queria sentir.
Nunca fora nisso e não morreu.
«Ao levantar dizer com genica: Deo gratias! Fazer o sinal
da cruz e dizer: Jesus, José e Maria, meu coração vos dou e a
minha alma. Enquanto nos lavamos e preparamos, ir repetindo
a jaculatória: Veni, Sancte Spiritus!.”
Nunca deu para isso. Acordava sempre cheio de sono,
tinha de lavar-se e despachar-se, e ainda por cima tinha de
fazer a cama. Não dava.
«Na missa, quando no altar se imola Jesus, não nos devemos
julgar na terra, mas no céu, entre os espíritos celestes.”
Muito difícil. Doíam-lhe os joelhos de estar tanto tempo
ajoelhado na madeira dura, não era o céu de certeza. Além
disso, as bufas e os maus cheiros dos parceiros do lado não
o faziam lembrar os anjos, sempre pensara que estes deviam
cheirar bem.
O tema vocação tinha sempre uma grande prelecção.
Percebia a intenção do que ele dizia, mas o facto é que só lhe
fazia aprofundar as suas dúvidas.
«Ninguém pode dizer eu tenho vocação se não foi chamado
por Deus. A vocação é uma predilecção que o Senhor tem
por nós e pela nossa família».
É claro que não tinha sido Deus que o chamara. Fora um
padre lá da escola em que andara que achou que ele devia ir
para o seminário. E é verdade que os seus pais ficaram encantados,
pois viram nisso uma forma de lhe dar um bom futuro,
coisa que eles não tinham condições. Nunca viu como o
Senhor tinha entrado nisso.
E o Padre Mestre apresentava provas para ter vocação.
«A aceitação dos superiores, o espírito de docilidade, sacrifício,
retiro do mundo, fugir da singularidade, não nos devemos
queixar de nada, combate ao amor-próprio, repelir a paixão e
a volúpia…»
Não estivera para isso e concluiu que talvez não tivesse
vocação
Tinham-lhe apontado a obediência como remédio
único para todas as dúvidas, obedecer em tudo, completamente
em tudo, e a mortificação como arma maravilhosa
para o cumprimento do dever e a diminuição do prazer, o
dever de amar os pequenos sacrifícios e o martírio… o prazer
devia vir do dever cumprido. E vinha a mortificação da vontade,
é claro.
«Que não devemos procurar as coisas mas sim fazer o que
nos mandam. Devemos estar desapegados da própria honra,
das comodidades, dos dons e qualidades da Natureza, da família,
dos amigos, das preferências, de qualquer lugar, das roupas,
dos alimentos, até das consolações espirituais, de tudo absolutamente.”
Nunca entendera como era possível pensar assim. De
certeza que não tinha vocação.
A mortificação era uma obsessão para o Padre Mestre. No
corpo, nos olhos, na língua, no olfato, no ouvido, no tacto.
«O corpo acariciado dá coices.”
Estupidez. Como era possível!? E arrematava com a
mortificação da fantasia, dos pensamentos inúteis e maus,
das paixões.
«E quais são estas?», dizia ele.
«Amor, a paixão de possuir alguma coisa que agrada ou
de se unir a uma pessoa muito amiga; a coisa pode ser boa, é a
caridade, ou pode ser má, é o pecado. Ódio, a paixão de afastar
o que desagrada; nasce do amor porque se opõe ao que amamos.
Desejo, paixão de procurar um bem ausente. Aversão, paixão
que nos leva a afastar o mal que se avizinha. Alegria, paixão
que goza o bem presente. Tristeza, paixão que se aflige de um
mal presente».
E chamava-lhes paixões de gozo, do apetite concupiscível.
Nunca lhe entrou que só a caridade é que é o amor bom,
como ele dizia. E o amor entre os seus pais? E o amor que
tinham por ele era caridade? E porque é que não havia de
querer afastar o mal que se avizinhava e lhe desagradava ou
lamentar um que estava presente?
E falava do que ele chamava de apetite irascível.
«Audácia, esforço para se unir a um objecto amado, mas
de difícil aquisição. Temor, fugir do mal que é difícil evitar.
Esperança, tender com ardor para um objecto amado, cuja
aquisição é possível, se bem que difícil. Desespero, quando a
aquisição do objecto parece impossível. Cólera, paixão que
repele violentamente o que nos faz mal».
E dizia que era preciso mortificá-las e só assim se poderia
ser santo. Que as de gozo se devia desviar o objecto, que as de
apetite irascível era fazer o acto contrário.
Fora o que o levara a pensar que, definitivamente, não
lhe apetecia nada ser santo.
O Padre Mestre falara sobre os votos que os noviços
iriam fazer.
A pobreza para ele não era novidade. Estava habituado,
mas não gostava de ser pobre, daí não entender que
ele dissesse que se devia amar a privação, que a santidade é
fácil para quem é pobre, que se devia amar as consequências
da pobreza. Só podia falar assim quem nunca foi pobre.
Segundo ele, S. Bernardo terá dito que Nosso Senhor gostava
tanto da pobreza que, não a encontrando no céu, veio procurá-
la à terra. Só. Que tinha escolhido uma mãe e um pai
putativo pobres e, até, discípulos pobres. Só se fosse parvo.
Nunca acreditara
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