No final do 2º Ciclo houve a Semana de Campo. O
Batalhão do COM foi-se instalar nos arredores da Serra do
Montejunto. Foi criado um chamado «inimigo», formado
por elementos das três companhias, Aiveca foi um dos escolhidos
e ficou contente. Vai ser giro, pensou.
E foram cinco dias interessantes e de algum divertimento.
O «inimigo» era o único vestido de camuflado, andava
livre e procurava furtar-se às batidas e deslocações das
companhias do Batalhão. Quando passavam por alguma
povoação eram olhados com curiosidade. Os camuflados
davam nas vistas.
– “Olha, vão para a guerra”, diziam alguns, simplesmente.
Mas, em alguns sítios, havia homens mais objectivos,
pensaram os do «inimigo»:
– “Olhem, venham aqui à adega beber um copo. Bem
precisam.”
E aproveitavam. Foram algumas tainadas com vinho da
Estremadura e pão com chouriço.
– “Como «inimigo» têm de se desenrascar. Arranjem-
-se como puderem”, tinha dito o tenente-coronel comandante
do Batalhão.
Por isso, sempre que podiam, procuravam comer qualquer
coisa nas tabernas das aldeias por onde passavam. Mas
também tinham, às vezes, que apanhar fruta nas árvores e,
até, colher favas e desenterrar algumas cenouras e alguns
nabos para comer crus. Procuravam não ser vistos, no
entanto foram apanhados uma vez ou outra. Os proprietários
não se chateavam quando explicavam a situação e diziam
não ter que comer e estavam com pressa.
Dormir foi mais complicado. Tinham de ficar no meio
de mato e debaixo das árvores. Só uma vez o tenente que os
comandava conseguiu que dormissem numa quinta. Falou
com o feitor, ele foi lá dentro e voltou dizendo:
– “A senhora condessa deu autorização para dormirem
no palheiro.”
– “Condessa?!”, todos abriram os olhos de espanto.
– “Esta quinta é da D. Maria Teresa de Noronha, a
fadista, que é também condessa de Sabrosa.”
O tenente deu esta explicação, devia ter recebido a informação
quando falara com o feitor.
Este disse, apontando para um anexo:
– “Vou ali desmanchar uns fardos de palha para poderem
dormir lá.”
Foi uma boa noite, melhor que as passadas a céu aberto.
Num dia em que estavam a comer na taberna de uma
aldeia o taberneiro disse-lhes que Portugal ia jogar à noite
contra a Hungria. Repararam que havia lá televisão.
– “Meu tenente”, disse o Arrojado, “bem podíamos ver
o jogo.”
Todos aprovaram, de olhos brilhantes. O tenente hesitou,
bebeu um trago e acabou por dizer:
– “Tá bem. Esta noite pode ser.”
Recebeu uma salva de palmas. Não o conheciam, até
porque ele não era instrutor em nenhuma das companhias
do COM. Era da guarnição da EPI e tinha sido destacado
para comandar o «inimigo». Mas já tinham verificado que
era um tipo porreiro.
– “Esta noite pode ser, mas se fosse amanhã não”, continuou
ele.
Sabiam que ele estava, evidentemente, dentro da programação
das acções da Semana de Campo. Todos olharam
interrogativamente.
– “É que amanhã à noite vamos ter que fazer. Logo
digo.”
Grande gritaria quando Portugal metia um golo. No
final, quando Portugal ganhou 3-1 foi a festa, com o «inimigo
» e os aldeões presentes de copos no ar.
À saída, o tenente também se mostrou contente:
– “Vamos comemorar”, disse.
Tirou dois very-lights que tinha no bolço, lançou-os
e duas estrelas enormes e muito brilhantes iluminaram a
aldeia. Todos de olhar no céu, encantados.
Encontraram depois um local perto e dormiram aí no
meio de umas oliveiras. De manhã deram umas voltas em
bicha de pirilau pela zona. Cerca do meio-dia, por indicação
do tenente, como estavam perto da aldeia da noite anterior,
foram almoçar na mesma taberna.
Já estavam a comer há dez minutos quando entrou de
rompante pela porta um grupo armado.
– “Estão presos!”, gritou o alferes que o acompanhava.
Levantaram-se todos, admirados.
– “Que merda é esta? À hora de almoço não vale”, protestou
o Arrojado.
– “Estão presos, já disse! Todos lá para fora!”, gritou de
novo o Póvoa.
– “Vamos a eles!”, incentivou o «inimigo» Candeias.
Saltaram todos dos bancos e atiraram-se aos do grupo.
Houve encontrões e passaram todos para fora da taberna.
Mais encontrões e alguns murros lá fora. Aiveca, ao ver
o Póvoa, já tinha concluído que era a sua companhia que
cercava aquela parte da aldeia onde estava a taberna. Os do
grupo do Póvoa tinham mauser e houve um que deu um tiro
de bala simulada, que era o que usavam, é claro.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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