segunda-feira, 22 de junho de 2015

«Começou assim a minha vida de seminarista.
Não está a ser mau. Têm sido uns bons cinco anos. Passei a ter todos os dias pequeno-almoço, almoço e jantar, coisa que não me sucedia antes. Além da comida, as refeições maiores são sensacionais, apesar de termos que nos manter sempre em silêncio. É que, tirando as rezas antes e depois, que são um bocado chatas, há umas leituras que um dos professores vai lendo de cima de um estrado enquanto comemos. Os trechos das sagradas escrituras são um bocado seca (se calhar porque são partes muito seleccionadas, onde não entram aqueles deboches que eu sei que há nelas, nem as destruições massivas que Deus faz), mas dá para conhecê-las e posso considerar que não é mau de todo. Mas o que mais me encanta é quando decidem intervalar com os livros de Júlio Verne. Maravilha para os meus ouvidos todas estas aventuras e mistérios, dá para sonhar, muitas noites me imagino um personagem delas.
Vou andando nos estudos, mas sem grande empenho. É a História de Portugal, o Português, o Francês, o Inglês, a Matemática, a Geografia, a Físico-Química… e o Latim, que pincel!, mas lá me vou safando como aluno mediano. Não desgosto dos professores. Menos um, o de Português. É que, quando ele um dia referiu as várias obras de Eça de Queirós, disse que ele tinha uma que era “O Crime do Padre Amaro.” Levantei o dedo para perguntar.
– Qual foi o crime, senhor padre?
– Isso não interessa. Só tens é que saber que ele escreveu este livro.
Não gostei da resposta e fiquei amuado. Havia algum mal em saber qual era o crime? No final da aula fomentei uma discussão com os meus colegas para ver se algum saberia o que se passou com o Padre Amaro. Ninguém sabia. O professor apercebeu-se da conversa, pegou em mim e pôs-me de castigo naaula.
– Hoje não tens recreio!
Nunca mais o pude ver. Eu gosto muito do recreio, de jogar à bola, do voleibol, de jogar à guerra, que é um jogo em que dois grupos, cada um com sua bola, procurava atingir os elementos do outro grupo, quem acerta mais vezes ganha a guerra.
Mas também me dou bem com outras coisas. Faço parte do coro do seminário, gosto de cantar, sobretudo os excertos de óperas, como as de Verdi. O director é italiano e um bom músico, faz-nos cantar o “Va pensiero” e o “Nabucodonosor re” e outras. Maravilha. Um outro padre, que esteve em França, põe-nos a cantar em francês, por exemplo “Quand le ciel est bleu, mon garçon.” A minha voz deve andar por aí num 45 rotações com temas natalícios que o Valentim de Carvalho veio cá gravar uma vez. Além do gosto que me dá cantar, também me ajuda a aprender muita coisa de italiano e francês. Também toco clarinete na banda. Como eu gosto de tocar o “táratá, táratá, táratá - táratá,tárati,tátá” da Cumparsita e desfilar em marcha lenta, animando as procissões cá da aldeia! Mas o melhor foi um dia em que uma rapariga filha de um senhor da terra, um dos nossos benfeitores, casou com um oficial do exército, pareceu-me, disseram-me depois que não era ainda. A banda foi tocar no casamento, mas o que eu gostei mais foi ver a farda do oficial e a espada. Fiquei encantado. Também comecei a aprender a tocar piano, mas obrigavam-me a passar imenso tempo a tocar as peças didácticas do Czerny, o que não me agradava muito. Um dia descobri uma partitura que andava por lá: “Para Elisa.” Aprendi a tocar e gostei tanto que a repeti várias vezes. Apanharam-me e tiraram-me das aulas de piano.
Já participei em algumas peças de teatro a que chamam operetas. Não me esqueço de uma em que cantámos “somos ladrões, somos ladrões, sem compaixão, sem compaixão”, porque houve um azar nesta. Havia uma cena em que era preciso disparar um tiro de espingarda e os padres pediram uma emprestada a um caçador cá da terra. Mas, como não percebem nada de armas, claro, não verificaram como é que ela estava e, azar, o caçador tinha deixado um cartuxo lá dentro. Bum! E vários seminaristas levaram com uns chumbinhos. Houve pânico e confusão, mas nada de muito grave, só um teve de ir ao hospital mais próximo.
Já as coisas mais sérias cá da casa me deixam sempre muito cabisbaixo. Rezar o terço todos os dias antes do jantar, repetição penosa, o que vale é que desperta o apetite, e há missa todos os dias logo depois do levantar. E ao domingo são duas, uma mais tarde, depois da habitual diária. É a solene, e vá lá que não desgosto de todo, pois há cânticos gregorianos, o que me agrada muito. Ah, ao domingo há também uma tarefa agradável, o banho de chuveiro, porque não há dinheiro para banhos todos os dias, diz o director. E os sermões durante as missas e outras vezes fora delas, que seca!, a martelar no pecado, a tecer loas à pureza, a verberar as amizades particulares… É um massacre.
Lamentável quando o director do seminário visita as famílias ricas da terra, os nossos benfeitores, como ele diz, e leva dois ou três de nós para o acompanhar como ramalhetes, os que ele acha menos brutos e matarruanos, os que são mais bem-parecidos. Eu, apesar de tudo mais bafejado pelos ares lisboetas, sou um dos que costumo ir, mas não gosto nada, pois sinto-me deslocado entre a gente tão fina que me levam a visitar.
Fui de romaria a casa de um senhor deputado, também à casa do médico e do advogado cá da terra. Houve até um dia em que uns nossos visitados se puseram a falar muito mal de um tal Humberto Delgado, que eu não conheço. Chamaram-lhe tantos nomes… até comunista, coisa que eu não sei o que é. E o director apoiava, não sei se por estar de acordo ou se era só para dar o ámen aos nossos benfeitores. Por essa altura, também fomos, desta vez todos os seminaristas, fazer número num comício político que houve, disseram que ia lá uma União Nacional, não me explicaram o que era e eu também não perguntei, nem sabia o que era isso de política. Foi ao ar livre. Como falaram mal do tal Delgado! Enquanto os ouvia era só comichões, dores nas pernas e nos pés, não me senti nada bem, nem eu nem nenhum dos meus colegas. Até que me veio a salvação no meio daquilo tudo: deu-me vontade de mijar. Disse ao padre que estava atrapalhado e corri para os meio de umas árvores que estavam por perto, e lá fiquei sentado numa pedra até tudo acabar.
Nestes cinco anos nunca fui a casa. Nas férias fazemos umas viagens a vários sítios nas zonas mais próximas.
Tenho passado invernos muito rigorosos, os meus pais não têm dinheiro para me enviar roupas e calçados adequados ao muito frio que aqui faz, tive sempre os dedos cheios de frieiras e os pés gelados. Martírio. Mas posso dizer que passei uma boa altura. Foi quando apareceu uma gripe chamada asiática, que eu apanhei, e estive uns dias de cama. Estive sempre quentinho, e o enfermeiro Ludovico, até é um gajo porreiro, tratou-me bem e, à socapa, deu-me uns bons bocados de pão com marmelada.
Uma das preocupações que há aqui é apontar exemplos para os jovens e eu achei muita piada quando morreu um seminarista com uma pneumonia e foi apontado como um exemplo de bom comportamento e santidade para todos nós. Achei piada porque ele era um palerma completo, burro que nem uma porta, mau aluno, antipático e muito mal-encarado. Chamava-se Frutuoso, nome com que gozávamos, pois ele peidava-se muito e todos exclamavam: hei, que fruto mal cheiroso! Mas, nessa linha, também eu tive a minha coroa de glória. É que, na perspectiva de arranjar um ícone para seguirmos, a organização dos padres conseguiu que um dos seus alunos fosse declarado santo aos quinze anos por um Papa, não me lembro qual. Que fazia esforços para fugir dos maus companheiros, das revistas pouco decentes e de espectáculos públicos que ferem a moral… enfim, é apontado como o ideal do aspirante ao sacerdócio, e o director do seminário decidiu colocar na igreja uma estátua do santinho. Um dia, no mês passado, chamou-me e disse-me que eu iria servir de modelo para o artista fazer a estátua. É que eu era bem-apessoado, tinha um rosto fininho que calhava para o efeito. Tá bem… e lá vou ficar num pedestal.»


Tal e qual, lembrava-se bem, foi já no final do último ano do seminário menor. Teria sido melhor terem-lhe apanhado estes papéis pois tinham-no mandado embora, com toda a certeza, e já não lhe aconteceria o que veio a seguir.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/

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