segunda-feira, 22 de junho de 2015

Um dia o Homero, que era o gestor das coisas correntes
do colégio, entregou-lhe uma carta. Era do Gonçalves. É esta
que ainda tinha.
“Inesquecível amigo. Encontrei-me há meses com o Padre
Zé Maria. Já estava muito mal. Sei que morreu (só os filhos
da mãe é que não morrem...). Rememorando tempos e sucessos
passados, falámos também em ti. É a vida. A difícil vida sem
lenitivos. Sem nada. Quase insípida. Mas a que temos de achar
sabor. O ambiente aqui na Faculdade é primário. Leve. Um
conjunto de diletantes. Pouca profundeza. Nenhuma mentalidade.
Uma Universidade sem ideologia. Os professores despejam
a bocejar coisas, ideias, doutrinas, sem nada de vivencial,
sem nada de colectivamente equilibrado. O equilíbrio é para
eles um pressuposto da nossa parte. Tenho-me lembrado bastante
de ti. Previa já esse desfecho. São coisas aborrecidas.
Azedas como absinto. A vida talvez venha a ser um arroto de
absinto de Deus. Gostava muito que me escrevesses. Talvez te
possa ser útil a minha ajuda em qualquer sector.
Teria muito gosto em te escrever uma carta imensa, mas
não me é possível. Que Deus, o pai dos fracassos, das topadas,
das incompreensões, dos suicídios lentos, das câmaras de gás e
dos campos de concentração, o fazedor de tudo o que na vida
sabe a absinto, a fel e a vómito te proteja. Sem Ele, nada.
Esgotados os recursos dos homens há sempre uma apelação: Ele.
Adeus. Cumprimentos do Gonçalves.”
Era o estilo dele, irónico. E deu-lhe a morada na Rua
Almirante Barroso, em Lisboa. Como o invejava por ter
encontrado a figueira. Não lhe respondeu porque não estava
com disposição na altura. Pensou no apertado controlo que
havia no Noviciado e na Filosofia e não sabia se o não fariam
ali também.
Quase no Natal, decidiram projectar um filme para os
alunos, “Chegou um Anjo”, com Marisol. Também viu e ficou
triste, atormentado por esse alguém que sonhava, a nostalgia
de uma mulher loura, bela e de olhos azuis, o anjo que queria.
Com pena viu aproximar-se o Natal, um que não sentia.
Tinha saudade da casa dos pais. Eram pobres mas, nesse dia,
havia bacalhau, rabanadas e leite-creme. Chegava para um
convívio de amor. Ali não.
Na véspera deu que era Natal porque a arrecadação de
bidões que havia ao lado estava em silêncio. Ninguém trabalhava
lá e não se ouvia o enervante bater das latas, nem os
empregados a praguejar. Diziam que as ruas estavam iluminadas.
Disseram-lhe que estavam bonitas, pois não as podia
ver por não sair. Dissera-lhe um velhote que passara por
debaixo da janela. Tirara um par de meias novas do bolso, e
contemplara-o. Certamente para algum dos seus netos. Ele
nunca tinha tido prendas de Natal.
Quando fez vinte anos lamentou as vinte primaveras, se
é que lhes poderia chamar assim, pois sentia-se mais disposto
a chamar-lhes invernos. Invernos, porque só tinha nevado e
chovido; porque tudo aquilo que nelas semeara nada produzira,
morrera tudo. A sua vida, a sua flor, perdera todo o odor,
debotara e ia deixando cair as pétalas, arrebatadas pelo vento
e pela neve. Vinte pétalas que tinham caído sem uma mão
que as colhesse, que as guardasse uma a uma com carinho,
sem um regaço a recebê-las. A mágoa oprimiu-lhe o coração.
Às vezes nem sabia como era capaz de conter o pranto
à frente dos rapazes, ele que já lhes dissera tantas vezes que
nunca chorara.
O Director disse, num dia ao almoço, que o Padre Inspector
viria em Abril em visita canónica, o nome que davam
às visitas de inspecção. Começou a pensar o que lhe havia de
dizer.
Quando ele veio, usou a manhã para uma reunião particular
com o Director e fez a prelecção habitual com todos
para dar notícias da vida da organização, ouvir perguntas e
opiniões, fez também uma visita a todo o edifício. Ao almoço
disse que quem quisesse falar com ele em particular podia
fazê-lo. Continuaram todos naturalmente entre as garfadas
ninguém se manifestando. Mas viu que ele o mirou. Se
queres eu também quero, pensou. Era evidente que o padre
Rolando já lhe tinha dito como ele andava.
– “Senhor Padre Inspector, eu gostava de falar consigo.”
– “Está bem, Aiveca, depois do almoço falo contigo.”
Não deu mais quaisquer sinais e continuou a comer e a
conversar com o Director.
Foi até à janela depois do repasto, deixando os rapazes
no recreio entregues à vigilância do Jaime e do Cunha. As
gaivotas volteavam sobre o rio. Procuravam algum peixe para
comer, e volteavam, e tornavam a voltear, porque tinham a
certeza de o encontrar. Na areia, ainda molhada pela maré,
os pescadores recolhiam as redes e os barcos, de mansinho,
com suor na fronte mas contentes, com as canastras cheias.
Os barcos iam-se juntando, pouco a pouco, na areia fresca
da praia. Um lavrador, mais além, por entre os campos ainda
verdes, lá ia de enxada ao ombro, enxugando a fronte.
Invejou as aves, os pescadores e os lavradores. Já não
queria voltear mais à volta da felicidade, sem bocado para
matar a ânsia que tinha de amor. Esta vida era estéril, nela
não germinava fruto tão precioso. A sua rede lá estava, abandonada
e furada, ao pé do baixel. As suas canastras vazias, o
barco arrombado, aqui não mais poderia pescar, deslizar pela
frescura, comer e vender aos outros daquele maravilhoso
peixe. Ia-se retirar, lavrador do seu pobre campo, desejoso de
arrancar a incalculável multidão de ervas daninhas que lhe
enchiam a alma.
Sentiu um abanão no ombro.
– “Não divagues, pá”, era o Jaime, “o padre Inspector
está à tua espera no gabinete do Director. É agora que te vais
decidir?”
Já não tinha nada a recear, ir-se-ia saber.
– “Sim. Vou-lhe dizer que me quero ir embora.”
– “Anda, vai lá. Depois conta-me como correu.”
O Inspector estava na secretária e com alguns papéis á
frente.
– “ Aiveca, diz lá, então”, disse calmamente.
Procurou também acalmar-se, mas não pôde evitar um
aperto no coração e um tremor na voz.
– “Não estou bem aqui e gostava de me ir embora.”
– “Mas não te dás bem com os rapazes? Ou é com o
Director?”
– “Não, não é por causa dos rapazes. Nem é com o
Director, até gosto dele.”
– “Então, o que é que se passa?”
– “Já não quero continuar. É só por isso.”
Continuou calmo, parecia que não se admirava nada
e demonstrou que na agenda da sua visita estava também a
solução deste caso. Pôs-lhe à frente uma das folhas que tinha
na secretária.
– “Quando vieste para aqui foi para pensares bem o que
é que querias. Pelos vistos já te decidiste. Primeiro tens de
pedir a desvinculação dos votos. Se estás consciente do que
queres assina esse pedido para eu levar, é o que tens aí à tua
frente.”
Já tinha lá o nome dele, era só assinar. Era evidente que já
estava prevista a atitude que iria tomar. Assinou.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/

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