Deixou de pensar quando entrou no gabinete do capitão
Ferreira para ver, então, o que era o tal jornal de parede. Ele
apontou-lhe para um monte de papéis que tinha à beira da
– “Olhe, estão aqui umas fotografias, uns recortes de jornais
e revistas e comunicados do SIPFA.”, parou dois segundos
porque viu que o aspirante não sabia o que era aquilo.
“É o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas.”
E continuou. “São coisas que fui juntando depois que tive
a ideia do jornal de parede. Há aí material que, com certeza,
já está desactualizado mas há outro mais recente. Para já vai
fazer uma selecção disto para fazer o jornal de parede, veja
especialmente os mais recentes, nomeadamente aqueles que
têm uma cruzinha em cima, são uns que eu já escolhi. O seu
trabalho vai ser ir vendo o que vai chegando, fazer a selecção
e mostrar-me antes de publicar.”
– “Mas, meu capitão, não é melhor primeiro, como me
tinha dito, irmos ver quais os conteúdos?”
Fez um gesto de impaciência.
– “Ó nosso aspirante, não me diga que está a pensar que
vai pôr ali no placard resenhas críticas sobre livros, já que
esteve em Letras, ou, então, fotografias de coristas do Parque
Mayer e tipas nuas para animar o pessoal. Montes disto têm
os soldados no interior dos armários da caserna.” Fez um trejeito
irónico. “E não lhe passa pela cabeça, certamente, que
vamos afixar lá fora comunicados dos comunistas.” Riu-se.
“O que vai levar dar-lhe-á a ideia do que se pretende, guie-se
por aí no futuro. Percebe?”
O sacana estava a mangar com ele mas não estava para se
chatear. Quero que te vás lixar, pensou.
– “Sim, estou a perceber, meu capitão.”
– “Pronto. Pode levar isso.”
Pegou na papelada e saiu. Numa mesa vazia do gabinete
ao lado espalhou aquilo tudo. Eram várias fotografias, umas
páginas de jornais e alguns comunicados do tal SIPFA. Foi
vendo um a um. Fotografias da imposição de medalhas a 10
de Junho no Terreiro do Paço, um recorte de jornal sobre o
acontecimento, também algumas com soldados sorridentes
ao pé de montes de armamento no chão e umas com pretos
de mãos atadas e outros esticados no chão, também uma da
inauguração da ponte no Tejo. Quase tudo estava assinalado
com a cruzinha e estavam escritas nas costas. Armamento
capturado aos terroristas, dia da raça, terroristas presos, terroristas
mortos, ponte Salazar, e outros dizeres. Um artigo de
jornal com título em destaque “Honrai a pátria que a pátria
vos contempla”, era o discurso de um tal José Veiga Simão no
10 de Junho, tinha a cruz. Havia uma página inteira com um
discurso que viu que era de Salazar, era mais antiga mas tinha
também a cruz.
Observou melhor as fotografias. Não as do 10 de Junho
e da ponte, estava farto de ver disso nos jornais e na televisão,
as outras é que o interessaram. Aquelas do armamento
espantaram-no, viu ali coisas que nunca tinha visto nem
sabia que existiam, metralhadoras e bazucas esquisitas. Os
soldados, de arma a tiracolo ou nas mãos, estavam de cara
e olhos radiantes de satisfação, mais do que aqueles que nas
mensagens de Natal desejavam um ano novo cheio de “propriedades.”
Havia um que, de olhar feroz e com a bota em
cima de um preto que estava no chão, tinha a arma apontada
para a cabeça dele parecendo dizer fui eu que o matei. Pose
para a foto, era armanço, de certeza. Já tinha lido em diagonal
os comunicados do SIPFA que estavam ali e viu que estava
tudo de acordo: as nossas forças tinham realizado várias
acções com sucesso, tinham apanhado muito armamento,
aprisionado e matado vários terroristas em Angola, Guiné
e Moçambique. As fotografias confirmavam-no, eram para
provar isso, evidentemente. E os nossos mortos? Pergunta
retórica, ali não havia resposta, já sabia. Havia quem chorasse
a morte na guerra de filhos e amigos, tinha conhecimento
de vários que o pai lhe contara e que ouvira falar em Mafra.
Mas que interessava isso? O que estava ali era para mostrar à
soldadesca que a guerra estava bestial, que o pessoal andava
na maior a dar porrada nos pretos, cambada de bandidos,,,
parou uns segundos e exclamou “que filha da putice!”
– “Há algum problema, meu aspirante?”
Virou a cabeça. Que porra! Estava tão embrenhado
naquilo que se tinha esquecido que na secretária do canto
estava o cabo escriturário.
– “Não há nada, nosso cabo, não há nada. Estava aqui
a pensar numa coisa que me aconteceu há tempos e de que
não gostei. Pensei alto demais, estou a ver. Não há problema
nenhum, tá tudo bem.”
Pareceu-lhe que o cabo tinha aceitado a explicação.
Tinha de aceitar, ele sabia lá qual era a filhadaputice. De certeza
que não imaginava o que lhe ia na cabeça.
Agarrou nos recortes de jornais. Aquele das medalhas no
Terreiro do Paço já sabia, eram os caquéticos Tomaz e Salazar
a distribuir cruzes de guerra a soldados e marinheiros. Enfim,
fabricar heróis para animar o zé-povinho e motivar os que
vão morrer, os tais de que não se quer falar.
Sabia como era. Quando estava no seminário, por altura
dos primeiros acontecimentos de Angola, tinham deixado
ver a televisão. Estava na merda e já começara a estar desmotivado
daquilo. Tivera um momento de ânimo e sonho.
Depois de ouvir as façanhas dos soldados portugueses em
Angola, pusera-se no lugar deles. Sonhou com mil combates
nos quais era o herói. Teve alguns sonhos desses. A maior
parte das vezes saía vencedor, mas havia vezes em que morria.
No entanto, era sempre cercado de glória, sempre como
um herói, sempre louvado e recordado pelos vivos. E, mesmo
depois de morto, assistia à sua exaltação, ouvia os comentários
elogiosos e o seu nome pronunciado por milhares de
bocas, com uma série infinda de pontos de exclamação e
admiração. Eram sonhos. Mas isso passara-lhe depressa porque
tivera de viver permanentemente com a realidade.
Estava a ver o artigo de través e saltou-lhe uma linha que
o interessou. Um homem tinha recebido uma medalha que
fora atribuída ao filho a título póstumo. Ah, ali estava um
morto, afinal. Mas não, sonhar com isto não pode ser. Nem
o filho queria morrer, ninguém quer, e de certeza que nem o
pobre homem queria estar ali em vez do filho. Interessava-lhe
que ele fosse herói morto? Obrigaram-no a estar lá, a fazer
aquele papel para o espectáculo, isso é que foi. Era mesmo
filhadaputice! Olhou para o lado. O cabo continuava com
os olhos no teclado da remington, pareceu-lhe. Vá lá, desta
vez não falara alto. Também viu um outro recorte com fotografias
de um brigadeiro e uns tenentes-coronéis que tinham
sido condecorados. Mas tinha sido no Porto e, curioso, no
Quartel General de lá e não em qualquer praça pública.
Aqueles não davam para o espectáculo, está visto, não davam
para a animar o pagode, nem havia um a título póstumo. Ah,
não tinha a cruz. O capitão tinha pensado como ele, estava
a ver. Claro que o zé soldado se estava a cagar para aqueles
gajos. Esperto, sim senhor. O do discurso do tal Simão, ou
Veiga Simão, não lhe interessou. Sabia lá quem era ele, mas
está bem, ia pô-lo no placard porque tinha a cruzinha. Mas
o do Salazar até queria ler, queria ver o que é que ele dizia.
Depois de uma breve referência no início à subversão internacional,
dizia ele, contra as nossas províncias ultramarinas
e ao terrorismo, espalhava-se até ao fim a elogiar o seu papel
de salvador das finanças nacionais. Que raio, pensou depois
de ler aquilo. O que é que os soldados percebem de finanças?
Nada de certeza, nem ele percebia. Além disso, era uma
página inteira que iria ocupar uma grande parte do placard.
Estava mesmo a vê-los interessados em ler aquilo, que nem
falava de futebol. E era se soubessem ler. Mas que se lixe,
tinha de o pôr, queria lá saber.
Olhou para aquilo, juntou tudo e ocorreu-lhe uma ideia
para a exposição.
“Ó nosso cabo, dê-me aí uma folha de papel e uma
caneta, ou um lápis.”
Escreveu quatro frases pequenas, eram os temas para
ordenar aquilo.
– “Agora bata-me isto à máquina, bastante espaçado
uma da outra, em maiúsculas. E arranje-me uma tesoura que
eu depois quero cortar cada frase. E diga a um faxina para
trazer o placard da companhia para cima desta mesa, e arranje-
me pioneses.”
Mais uma hora e o placard ficou pronto com aquilo
tudo e no local do costume. Foi ter com o capitão Ferreira
dizer-lhe que já estava e acompanhou-o para ir ver.
– “É mesmo isto, está perfeito”, disse ele depois de mirar
detalhadamente, “bem me parecia que você era o homem
indicado.” Olhou para o relógio. “Está quase a tocar para o
rancho, é hora de jantar. Vou até casa, hoje ficamos por aqui.
Você pode ir já também.”
– “Eu não vou, meu capitão.”
– “Mas você é de Lisboa, não é?”-
– “Sou, mas só vou a casa ao fim-de-semana.”
– “É pá, então isso vai ser complicado hoje, aspirante
Aiveca. O vagomestre só está a contar com jantares para
os oficiais que estão de dia ao regimento e à companhia. A
messe e o bar de oficiais não funcionam à noite. Se você me
tivesse dito antes… Bem, amanhã tratamos disso, mas hoje
vai ter de ir jantar lá fora.”

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