Na gare marítima de Alcântara houve, primeiro, a despedida
– “Não vai ser muito tempo, só entre cinco e dez minutos.
Quanto mais tempo pior é, mais custa. Quando tocar o
clarim vem tudo para a formatura. Vai estar lá um representante
do Ministro do Exército para passar revista”, avisou o
capitão.
Estavam lá os pais e a irmã de Aiveca.
– “Meu querido filho, tem muito cuidado”, repetia a mãe
agarrada a ele e em lágrimas, “não te metas em problemas.”
– “Ó mãe, esteja descansada que eu vou ter muito cuidado
e não vou arranjar nenhum problema. Eu prometo,
mãe.”
Não podia ser senão assim. Não ia dizer que ter cuidado
podia não chegar, nem que não era ele que ia arranjar problemas,
que os outros é que lhos iam arranjar
O pai não chorava, estava sério, mas transparecia-lhe no
olhar um sinal de orgulho quando olhava para os galões de
alferes no camuflado do filho.
– “Quero-te cá de volta, filho”, disse-lhe com um abraço.
O clarim tocara para formatura.
– “Cá estarei, claro”, abraçou-se a todos e despediu-se
com uma brincadeira para desvanecer tristezas:
– “Adeus até ao meu regresso.”.
Depois de o coronel representante do Ministro do Exército
ter feito revista à formatura marcharam para o barco.
Ali estava ele, pequeno, nada igual aos que se viam na
televisão quando transmitiam embarques de tropas. Tinha
escrito no caso em letras garrafais «Ana Mafalda» e mais
– “É nesta merda que a gente vai para a Guiné, foda-se”,
barafustou o Cosme à maneira, minhoto de Braga.
Igual decepção nos outros membros do pelotão. Mas
houve um que reagiu com humor.
– “É pá, vê-se logo que não és de Lisboa. O barco onde
vamos está do lado de lá e este é o cacilheiro para a outra
banda”, era o Santos, reguila do Bairro da Liberdade.
Deu para todos se rirem, mesmo os que não perceberam
a piada, foi por contágio. Pararam a risota e os comentários
quando chegaram ao pé das senhoras do Movimento Nacional
Feminino. Estavam à entrada da escada de portaló a distribuir
tabaco, calendários, bolachas, santinhos e palavras de
– “Só me faltavam estas gajas”, murmurou Aiveca.
“Muito obrigado, mas só quero tabaco. Não gosto de bolachas,
já tenho calendário e muitos santinhos, e, por favor, não
me diga essas coisas para me animar aqui em frente dos soldados
senão fico mal visto.” E em tom afectado: “Percebe?”
Os soldados riram. Mas a mulher, uma quarentona de ar
chique e cabeleira empoada, estendeu-lhe com má cara um
maço de tabaco, um Português Suave. Só fumara uma vez ou
outra, mas nunca um sem filtro. Iria dá-lo a um soldado qualquer.
Oficiais e sargentos foram chamados à sala da primeira
classe, o representante do Ministro do Exército ia dizer umas
palavras de despedida.
– “Mais uma”, comentou Aiveca.
– “Diz que não és católico”, gozou o Castro.
– “Tu é que devias ir dizer-lhe para ir mas é falar aos soldados,
que bem precisam, como tu dachas.”
Muitas felicidades, orgulho na defesa dos interesses da
pátria, e outras coisas do género. O costume já ouvido. Mas
foi curto, vá lá. Não tinha mais nada para dizer, claro.
Quando estavam todos no convés, o capitão, que estava
acompanhado do comandante do navio, chamou os alferes
para lhes indicar como devia ser distribuído o pessoal pelos
alojamentos.
As bagagens já estavam nos locais onde iam ficar, tinham
vindo em viaturas logo de manhã, cada um que procurasse
a sua. Os alferes, sargentos e furriéis ficavam na segunda e
terceira classe. Ele ficava em primeira classe, onde estava o
comandante do navio, o imediato e o oficial das máquinas.
Estariam lá também uns civis que vinham à boleia. Os soldados
iam para o porão, estavam lá montados beliches de ferro
com enxergas de palha.
– “Transmitam isto ao pessoal quando o barco começar
a andar. Há aí marinheiros para dizer onde é”, terminou
assim e afastou-se com o comandante.
– “Temos de agarrar os camarotes de segunda classe,
senão os furriéis papam-nos”, preocupou-se o Castro.
– “Cá por mim preferia os de primeira. São melhores,
com certeza”, disse o Zé Pedro em tom crítico.
- “Vocês são tramados. Vão de borla e ainda estão com
exigências”, o Aprígio olhava para eles ironicamente.
Aiveca ouvia-os mas estava com os olhos postos noutro
local do convés.
– “Vêem aqueles gajos ali?”, e indicou com a cabeça.
“Devem ser os tais civis que vieram à boleia. Quem serão
eles?”
– “Devem ser colonos que regressam à Guiné”, palpitou
o Zé Pedro.
– “Não me parece. Se fossem colonos achas que se
metiam nesta porcaria? Iam mas é de avião, acho eu. Aliás,
mesmo que viessem não era à boleia, como disse o capitão.
Tinham de pagar.”
– “Vejam o ar deles”, disse o Aprígio. “Fatinho e gravata
escura, cabelo cheio de brilhantina e cara de burgessos. Cheira-
me que são polícias, se calhar até são da PIDE.”
– “É pá, se é isso não está certo.”
Todos interrogaram o Castro com o olhar a perguntar
porquê.
– “São quatro e, se são polícias, ou da PIDE ou coisa
parecida, deviam ir para a segunda ou terceira classe. Nós,
que somos oficiais, é que devíamos ir para a primeira.”
– “Eles deviam ir mas é para o porão.”
– “Não exageres, Aprígio. Coitados dos soldados”, disse
Aiveca.
Foi quando sentiram o trepidar dos motores do navio e
o estridente apito da buzina. Correram para a amurada.
Quando o barco zarpou pela barra do Tejo estava toda a
companhia agitando as mãos em leque, tentavam estancar as
lágrimas que escorriam pelo cais. Alguns risonhos, pareciam
dizer eu vou ali e já venho. Outros estavam sérios, com ar de
quem acha que não vale a pena chorar. E lá, no terraço-varanda,
havia braços e mãos a querer agarrá-los e lenços, uns
a dizer adeus e outros, a maioria, a limpar lágrimas. É assim,
o que é que havia de fazer? Aiveca até estava sereno, não lhe
dava nem para sorrir nem para ficar sério. Os dados já estavam
lançados, logo veria o que davam.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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