Estavam todos desalmadamente a escovar as botas
quando o Rainha saltou da cama e disse atrapalhado:
– “Estou à rasca! Pessoal, vou cagar!”
E largou rápido em direcção ao sítio dos lavatórios. Mas
mais depressa voltou, muito atrapalhado.
– “Aquela merda não tem cagadeiras, só tem lavatórios e
chuveiros. Quem é que sabe onde são as cagadeiras?”
– “O gajo que estava aqui disse que eram fora da caserna,
ao fundo corredor ali em frente”, disse o Norberto.
O gajo que tinha estado ali era o faxina que acabara de
fazer a limpeza da caserna na altura em que tinham chegado.
O Rainha desatou a correr porta fora em direcção ao corredor.
Isto de não haver retretes pegadas à caserna provocou,
num certo dia, uma cena hilariante. O faxina fora logo de
manhã fazer a limpeza dos chuveiros, como era hábito. Os
“nossos cadetes” já tinham marchado para a instrução, estava
na hora. Quando levantou uma das grades de madeira de
um dos chuveiros olhou horrorizado para as mãos. Estavam
cheias de trampa.
– “Filhos da puta, cagaram no chuveiro!”, terá dito,
como qualquer um perante aquilo.
Foi fazer queixa ao capitão Castro. Este mandou reunir
a companhia à hora de almoço.
– “Um dos nossos cadetes fez uma coisa muito grave, e
há que encontrar o culpado. Se não, ninguém vai a casa no
fim-de-semana!”, ameaçou.
Um sussurro perpassou pela formatura. Que terá sido?
Alguém se meteu com alguma das mulheres? Nessa altura
já todos sabiam que vários oficiais e sargentos viviam com as
mulheres nos quartos da zona da caserna. E o capitão continuou.
– “É que alguém fez as necessidades nos chuveiros da
caserna.”
Todos se riram. Os comandantes dos pelotões viraram-
-se a impor respeito.
- “É uma vergonha! Não pode ser! Fico à espera que o
culpado se acuse!”, continuou o capitão.
A seguir disse ao segundo-comandante para mandar
destroçar.
Na caserna a malta riu à fartazana. Comentou. O que é
que queriam!? As casas de banho estão ao fundo do corredor
e, quando um gajo está muito à rasca, não tem alternativa...
Na manhã seguinte, apareceu nos chuveiros da caserna
uma inscrição:
«O fantasma cagão ataca novamente. Cuidado,
faxina!»
E, dessa vez, o faxina teve cuidado. Mas fez novamente
queixa ao comandante da 3ª do COM.
Face a isto, e como o cagão não se tivesse apresentado,
a companhia foi novamente formada. Mas foi o Mao Tsé-
-Tung, que era o segundo-comandante, quem se dirigiu à
formatura.
– “O nosso capitão está tão envergonhado que não quis
dirigir-se a vocês. Quer que o culpado se manifeste. Diz que
não o vai castigar. Quer, apenas, que ele ponha um bilhete na
caixa da companhia a dizer que foi ele.”
Muito enfiado, o bom do tenente, era mesmo bom como
homem e como militar, mandou destroçar. Era mais que
certo que, como todos, viu a ridicularia daquela proposta do
capitão.
A caixa da companhia lá ficou sem nada e foram todos
de fim-de-semana. E não se soube quem era o «fantasma
cagão». Na altura. Aiveca soube mais tarde que tinha sido
o Brásio.
O som da corneta tornou-se habitual nas manhãs, todos
se soerguiam nas camas com o coração aos saltos. Havia sempre
o choque diário da corneta. Mas, com o tempo, passou
a ser de curta duração o levantar e o vestir. O automatismo,
a reacção padrão fruto da repetição interiorizara-se já como
um comportamento feito de reflexos condicionados. Aiveca
era sempre dos primeiros a saltar da cama. Já estava habituado
a ter que se levantar apressadamente com a música religiosa
e o bater de palmas violento dos padres no seminário a percorrerem
o corredor do dormitório dos seminaristas. Ali, no
COM, o “Juízo Final” até era mais motivador.
Foram doze semanas de exercícios de ordem unida, de
exercícios na «aldeia dos macacos», de caminhadas para a
carreira de tiro. Estas eram uma estopada, porque tinham
de dar tiros na mata e muito longe, além de terem que levar
marmitas pois o almoço era servido lá. O Mao Tsé-Tung
dava também umas prelecções com o pessoal formado em
U sobre armamento, sobre o RDM… Todos iam andando,
enfim. O Simões é que se mostrava sempre cansado nas caminhadas, tinha de se sentar porque não aguentava. O Norberto
era o que mais se distinguia pela agilidade e Aiveca era
notado pelo empenho. O Rainha, afinal, ia fazendo tudo
normalmente, só, às vezes, é que o tenente tinha de lhe dar
um encontrão porque se deixava dormir encostado à arma
quando ele estava a falar ao U.
A certa altura disseram-lhes que ia haver exames psicotécnicos.
– “Treta”, comentou o Norberto, “não sei para que é isso.
O nosso destino já está traçado.”
– “É pá, é preciso saber o que cada um pode fazer
melhor, onde se enquadra melhor para a missão do Exército”,
disse o Firmino.
– “Está tudo decidido, já te disse. Outro dia ouvi uma
conversa do Mao Tsé-Tung com o Póvoa e eles diziam que
neste COM era tudo para atiradores.”
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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