Conheceu uma rapariga. Estava ansioso por encontrar
o tal amor por que sempre sonhara no seminário. E, um mês
depois de ter saído de lá, foi à praia de Troia com a irmã e
o namorado dela. Viu-a lá no seu bikini e pareceu-lhe bela.
Liberto de recalcamentos, tentou e chegou à fala com ela.
Chamava-se Natália e disse que morava em Lisboa perto
da Avenida de Roma mas estava em casa de uns familiares
em Alhos Vedros a passar férias. Estava ali o amor, não teve
dúvidas. Quando atravessaram o Sado em direcção a Setúbal
trocaram telefones e convencera a irmã e o namorado a irem
a Alhos Vedros. Viu onde ela entrou, mas só isso. Ficou a
sonhar com ela. Já em Lisboa, propôs-lhe um encontro a dois
mas ela negou-se, disse-lhe por enquanto não.
Foram depois mais uns telefonemas.
– “Olá, estás boa?”
– “Olá, estás bom?”
– “Podemos encontrar-nos?”
Mas ela sempre que não.
Passara dias aborrecidos e metido em casa, olhando pela
janela, vendo o céu enevoado, o alcatrão das ruas molhado
pela chuva de Outono leve e miudinha, mas persistente.
Decidiu escrever-lhe, uma carta de um colegial enamorado,
que a amava, que era o primeiro amor, que era a sério. Respondeu-
lhe dias depois com um telefonema, que tá bem,
podia ser que sim, logo se vê. Não o satisfez, ficou chateado e
saiu para dar uma volta no jardim do Príncipe Real. Choveu e
apanhou uma molha. Com aquela chuva em cima do fato de
terylene, era o seu fato de verão e inverno, sem sequer poder
comprar um guarda-chuva, veio-lhe à cabeça que a Avenida
de Roma era uma zona de gente chique que não andaria à
chuva certamente. Ela era dali e ele de uma água furtada.
Mas amava-a, pensava, e andou macambuzio durante dias
na perspectiva da decepção desse primeiro amor. O amor
imenso de que era capaz desprezado.
Esteve tempos deprimido, muito tempo, mas quase lhe
estoirou o coração de alegria quando ela telefonou a dizer
que se podiam encontrar no Café Monumental. Não sabia
onde era mas perguntou em casa. Olharam-no interrogativamente.
– “Vou estar lá com uma pessoa.”
– “É com a Natália”, disse a irmã a rir.
– “É.”
Estúpida, pensou com má cara. Perante o riso dela não quis
adiantar mais nada. Também ninguém falou mais sobre isso.
Ao chegar ao café ficara um pouco indeciso. Havia o
barulho das conversas, tudo gente fina, reparou. Mas decidiu
arranjar uma mesa e pedir uma bica. Passado pouco apareceu
a Natália, vinha acompanhada de duas velhas. Ficou um
pouco espantado porque não estava nada à espera.
– “É a minha mãe e a minha tia”, apresentou-as.
Duas velhas de ar pedante, vestidos de seda, todas pintadas,
com brincos e colares a dar nas vistas. A vontade era
pirar-se. Mas era a Natália e foi simpático.
– “Querem alguma coisa?”
– “Uns bolinhos e um chá”, disseram as duas.
– “Um sumo de laranja”, pediu a Natália.
Ia ter que pagar aquilo. Felizmente já podia, porque
o seu pai, naquele final de ano, tinha conseguido arranjar-
-lhe emprego onde trabalhava como soldador a autogéneo.
Estava lá há uns tempos como ajudante de fiel de armazém.
Ficou descansado, podia pagar.
A Natália não falou, mas a mãe nunca se calou enquanto
bebericava o chá. Que o marido era empresário, que tinha
dois filhos mais velhos que a Natália, um era médico e outro
engenheiro, que a Natália tinha agora entrado na Universidade,
e outras coisas, enfim, sobre o bem-estar da família.
Gente rica, confirmou para os seus botões.
– “E o senhor anda a estudar?”
Era a mãe dela de chávena na mão e mindinho espetado.
– Agora estou a trabalhar. Mas estou a ver se consigo
tirar o 7º ano para ir para a Universidade depois.”
Ela abriu mais os olhos:
– “E onde é que trabalha?”
– “No armazém de Santos da AGPL, a Administração
– “Ah! No porto de Lisboa!?”
Pareceu horrorizada e quase se engasgou com a miniatura
que levara à boca.
Evitou dizer que era ajudante de fiel de armazém para
não pensarem que era para elas um reles trabalhador braçal,
mas viu logo que não ganhara qualquer mérito com isso. A
Natália baixou os olhos e a tia, que não falara mas estivera
sempre de olhar inquiridor, pousou a chávena com ruído e
tossiu educadamente com a mão à frente da boca.
A mãe disse que já era tarde, levantaram-se todas e só a
Natália é que lhe deu um frio aperto de mão.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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