Ao fim de sete longos e incómodos dias e noites tenebrosas
em que se viu só mar, sem gaivotas nem terra à vista, o
cargueiro chegou. Eram cinco da tarde e já começava a escurecer.
Ali estava a Guiné, ficaram todos a saber que tinha uma
capital chamada Bissau. Eram aquelas luzes ao longe. Já lhes
tinham falado que iriam para a Guiné, mas isto da cidade era
nome novo. Acabava por ser a visão directa do que tinha sido
o vago conhecimento quando lhes mostravam os mapas na
escola e diziam que era o Império Colonial Português.
Encostou-se à amurada e ficou a olhar. A planície de
água amarelenta estendia-se até onde a neblina deixava ver e
o ar quente que dela se desprendia penetrou-lhe na pele e nos
pulmões. Os olhos não conseguiam ir mais além naquela paisagem
fechada. Um sufoco na voz e um suor pelo corpo todo
não o deixaram dizer nada quando alguém perto comentou
que era o rio Geba. Fora atingido pelo espanto e pelo receio
“Onde é que eu vim parar!...”, murmurou Aiveca.
Os soldados que olhavam também, a seu lado, não
diziam nada mas tinham o mesmo espanto nos olhos.
As perspectivas juvenis que tivera de aventura e emoção
diluíram-se naquele ambiente mortiço, apenas apossando-se
de si o sentimento da chegada ao inevitável. Ficou apreensivo
com o que estaria para mais além. Ao pé ninguém se ria, ninguém
cantava, ninguém agitava os braços de contentamento.
O futuro era aquilo para todos, amarelo e nebuloso. Quedou-
se com o olhar perdido, tentando adivinhar o concreto
ainda invisível, apenas com o vislumbre que lhe fora dado em
Mafra, e que era vir matar ou vir morrer.
Nunca matara nem uma mosca, nem um mosquito, só
os enxotava para não o incomodarem. As abelhas e vespas
deixava-as voltear à vontade, esperando que não vissem nada
nele que lhes interessasse e sentissem que não lhes queria
mal. Aos gatos e cães só lhes fazia festas e atirava comida. Até
já fora arranhado e mordido mas nunca lhes batera. Nem
matara ou cortara o rabo às lagartixas, apenas batia com o pé
para as ver correr velozes por entre as ervas. Pegava no rabo
das osgas que via nas paredes da casa e atirava-as pela janela
fora. É verdade que, quando estava no seminário, mandara
um martelo à cabeça do Jaime e que também dera um murro
num colega cadete que o empurrou quando estavam numa
formatura, em Mafra. Mas nunca lhe passou pela cabeça
matar alguém, nem agora. E morrer, morrer foi um desejo
quando seminarista amargurado com os recalcamentos da
natureza e por causa da pressão da instituição que o amarrava,
mas depois disso queria era viver a vida que sonhara, já
não queria morrer.
– “É mau matar, e morrer também. Que vou fazer?”
A questão do mal menor, evidência da situação imposta,
o menos mau quando não há remédio. O dilema de quem
não consegue matar uma mosca face aos que vêm do mato a
gritar mata, mata, como lhe tinham dito?
Não teve tempo de cimentar qualquer ideia, porque veio
o capitão e disse que chegava uma vedeta que o ia levar a Bissau
para ir ao QG receber ordens, que os alferes podiam ir
com ele, mas que tinha de ficar um em troca com o que estava
de Oficial de Dia. Ofereceu-se.
– “Fico eu. Agora não estou com disposição para andar
mais de barco.”
Agora não estava nada para isso, não imaginando, é
claro, para o que estava destinado no dia seguinte. A vedeta
levou o capitão e os outros alferes, Aiveca ficou com todos os
outros no “transatlântico” que os trouxera durante sete dias.
Foi para o beliche e lá ficou estendido.
Dormitava quando abriram a porta de rompante. O Zé
Pedro estava excitado.
– “É pá, não sabes o que perdeste. A cidade é pequena
e não vale nada, só se vêem pretos e tropa por todo o lado,
mas tem uns bares porreiros, há marisco e cerveja ao preço
da chuva. Não quiseste vir, agora estás feito, o Mendonça
disse que amanhã logo de manhã vamos numa LDM pelo rio
acima até ao nosso destino.”
– “Feito já eu estou há muito tempo. Sei lá o que é uma
LDM. E, já agora, qual vai ser o nosso destino?”
– “É pá, a LDM é uma lancha onde nos vão meter a
todos, é uma lancha de desembarque, chamam-lhe média.
Quanto ao sítio para onde vamos o capitão disse que é sigiloso.”
– “Tá bem, caguei, tanto me faz. Deve ser o mesmo em
todo o lado.”
Só depois do almoço é que a tal LDM encostou à bochecha
do barco. Com ordens e reparos das tripulações de cima
e de baixo, a escada de portaló foi baixada e presa na lancha,
após o que todos foram descendo, ajoujados de sacos, malas
e outras bagagens, os soldados e sargentos para o convés e os
oficiais no alto, perto da cabine. Largou por águas tão claras
como as do mar, nada que se parecesse com as que estavam
quando tinham chegado. Seguiu ronronando os motores.
Iam quatro fuzileiros morenos de sol, muito bem tratados,
grande físico. Causaram impressão a todos.
Batia um sol constantemente importuno e asfixiante
mas parecia um cruzeiro turístico, todos procurando, dum
lado e doutro, encontrar pontos altos para ver a paisagem. Os
alferes e o capitão viam melhor porque estavam lá alto ao pé
da cabine. Rio largo, maravilha, lembrava-o das travessias do
Tejo debaixo do sol escaldante do Verão. Mas não, não havia
Cacilhas à vista, nem os guindastes gigantes da Lisnave ou,
mais longe, as chaminés fumegantes da CUF, no Barreiro.
Não ia apanhar a camioneta para a Costa da Caparica nem ia
atravessar o Sado para Troia, onde conhecera a Natália.
– “Que raio de lembrança agora!”, e Aiveca deu um pontapé
no varandim.
– “O que foi?”, perguntou o capitão, os outros olharam
para ele.
– “Nada de especial, meu capitão. Pareceu-me que estava
Levantou a cabeça e mostrou-se interessado também na
paisagem, era para não lhe dizerem mais nada.
Gerou-se grande agitação ao pé da cabine. O rio estreitara
muito, com densa floresta nas margens, com curvas
e contracurvas sempre a aparecerem. O marinheiro agarrado
à metralhadora pesada dizia que na próxima curva
costumavam ser atacados, provocando grande apreensão nos
rostos de todos. O alferes Castro gritava:
– “Onde estão as nossas armas?”
Mas o capitão dizia:
– “Quando chegarmos ao destino é que as temos.”
– “Estão a gozar com os periquitos”, rosnava o Zé Pedro,
de riso amarelo.
O Mendonça gritava para que tropa no convés se baixasse.
– “Já começam a foder-nos. Não sei se serão eles ou são
os nossos. Ou uns e outros”, comentou o Aprígio.
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/


Sem comentários:
Enviar um comentário