«Outro apito e fui mesmo, deixando a grande cidade para trás aos poucos, perdida cada vez mais no horizonte. Era uma manhã de verão. Uma manhã como as outras, muito corriqueira. Muito sol lá fora, muito calor e muita gente na carruagem por entre malas, sacos e embrulhos. Havia gente estúpida, e havia gente com um raio de vontade a chamejar nos olhos. Desde os que iam com algum fim em mente até aos que empreendiam aquela viagem de rosto apático, indefiníveis...
Uma amálgama de tudo o que há no mundo. Mas todos se davam por felizes pois os bancos chegavam para todos. A partir de Vila Franca foi pior para quem entrou com eles todos ocupados. Folgados, ainda ninguém reparava na atmosfera sufocante e nos maus cheiros daquela terceira classe. Tudo terceira classe: carruagem com bancos de pau, pessoas e conversas. No início quase ninguém ligou ao miúdo que não queria largar a mãe quando o comboio arrancou de Santa Apolónia, e eu também preferia passar despercebido de todos, mas a certa altura já me sentia alvo das atenções dos meus companheiros de banco, embora eles não dissessem nada, e fui engolindo as lágrimas aos poucos. Já lá vão alguns anos e tive, então, uma impressão que se repetiu depois muitas vezes. Ainda agora tenho, também sinto a mesma perturbação ao ver gente que me olha como a um animal estranho. Só que já aprendi, após o primeiro impacto, a receber esses olhares com indiferença. Mas ali, naquela altura, confundiram-me e irritaram-me aqueles olhares parolos.
Aquele lá do outro canto ficou a olhá-lo com a garrafa na mão, a boca aberta e os olhos vermelhos, interrompendo a libação por alguns instantes. Encolheu os ombros depois a querer dizer “ah! mais um padreco”, e continuou a encharcar o estômago. E bebeu, bebeu que se fartou. Parecia uma adega vazia que não tardou muito a encher. Daí a instantes já aquela encarnação de Baco dormia a sono solto, chapéu puxado para a cara, pernas abertas e mãos cruzadas sobre a proeminência abdominal redondamente enorme. Ali mesmo ao pé uma mulher cochichou qualquer coisa ao ouvido da pessoa do lado, lançando-me uma olhadela, tingindo-se-me de púrpura as faces, senti. Apeteceu-lhe gritar e bater em todos, gente cruel que não compreendia a minha situação.»
A chuva começou a cair novamente sobre as velhas telhas. Mas até gostava de a ouvir, recostou-se na cadeira.
Lembrava-se bem como fora a partida. Ainda sentado num banco da estação, a mãe estava calada e séria, ia vendo os que caminhavam apressados para apanhar um comboio, sobretudo os que entravam na primeira classe. Admirara--lhes o bom aspecto e os belos fatos, tinha achado naturalmente que era a classe deles, não a dele, um rapaz pobre a caminho do seminário com bilhete para a terceira. Mas foi uma viagem inesquecível, como estava ali no caderno.
«E o comboio voava, corria, transpunha montes, atravessava rios. Corria na magnífica e ensopada lezíria do Tejo. Esforcei-me novamente, mas não consegui reter mais um par de lágrimas de desgosto e incerteza por me sentir sozinho e alvo da curiosidade dos adultos. Só o velho, aquele avô da frente, só ele é que me vira as lágrimas, só ele lhes procurou reter a marcha.
– Então, meu rapaz, não chores. Isso acontece, há-de acontecer muitas vezes, e não és só tu que choras. Foi a tua mãe que te veio trazer? Pois olha que ela a estas horas também há-de
estar a chorar.
Vendo que apenas tinha agravado o caso, o bom do velho atirou fora a beata que lhe fumegava nos lábios, abriu uma embalagem que trazia e estendeu-me uns bolos de arroz.
– Gostas? Prova um. Eram para a minha neta, fui à cidade e não quis vir de lá sem nada para ela, mas não faz mal, comprarei mais pelo caminho. Anda, não sejas parvo, toma lá um.
Fiquei a olhar, indeciso.
– Não queres, isso é contigo.
Decidi-me a estender a mão.
– Ah, já mudaste de ideia, assim é que é, ora toma lá este que tem boa cara.
Aceitei o bolo com um sorriso amarelo. Fui-o comendo com pouca convicção mas ia ficando mais sereno. Para mim aquele avozinho era dos bons. À medida que lhe ia respondendo com acenos de cabeça, por entre uma lágrima ou outra ainda, ia simpatizando com ele, com o seu bigode e com o seu cigarro, que lhe dava um ar de locomotiva sempre a fumegar.
Estava mais sereno.
– Vais para o seminário, claro.
– Sim, senhor, vou para o seminário.
– Bem me queria parecer. Nas viagens que faço já vi muitos com essa cara. Mas olha que não é nada mau ser padre.
– Mas eu não quero ir para padre, a minha mãe é que quis. Eu tinha-lhe dito que queria ser padre, mas isso foi há muito tempo, agora já não quero.
– Não sejas parvo, a tua mãe é que pensou bem. Olha que ser padre é um ofício muito rendoso, nada mau, nada mau, a tua mãe é que foi esperta, ganham bem, oh se ganham. O padre da minha terra parecia um fuinha quando foi para lá, chupadinho, esfarrapado, e é vê-lo agora, até tem um automóvel. Não é que ele seja má pessoa, mas é só para dizer como ele fez caminho naquela vida. Pois segue os conselhos da tua mãe, pois ela é que sabe o que faz. Bem…
Deu mais uma chupadela no cigarro.
– …não quer dizer que chegues a padre, ninguém é obrigado, quantos não conheço eu que não quiseram continuar, empregaram-se bem, casaram e levam uma boa vida. Então por não sermos padres havemos de ir para o inferno?! Até te
digo que a maior parte dos padres é que há-de malhar lá com o costado... É como te disse, não perdes nada, só ganhas. Porque hás-de chorar? Se eu tivesse tido uma ocasião dessas...
Parou e espetou o dedo no ar. O velho tinha-se calado com os olhos fitos no corredor. Tinham entrado na estação anterior dois GNR. Ele fitou os dois trambalazanas, de espingarda a tiracolo e enormes manchas de suor nos sovacos, anafados e senhores de si, que se foram chegando para o corredor, visto a entrada já estar a abarrotar de viajantes. O meu colega rapou da onça de tabaco, enrolou um bocado numa mortalha, lambeu-a para colar, puxou o chapéu para os olhos e recostou-se para trás.
As conversas em geral baixaram de tom. Outras terminaram naquele instante. Pareceu, naquela altura, que todos tomavam consciência dos incómodos da viagem. Aumentou o número de encalorados, que passaram a abanar-se ruidosamente com jornais, lenços e chapéus, o dono do cabaz proferia ameaças de morte à irrequieta galinha, a mulher ao seu lado ganhou coragem e disse ao velhote para chegar os pés mais para o lado que lhe estava a pisar a saia. Encostei-me mais ao canto do banco, pegado à janela. Os GNR eram figuras minhas conhecidas há muito. Não estranhei a reacção dos meus companheiros de viagem, portanto.»
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
Sem comentários:
Enviar um comentário