quarta-feira, 24 de junho de 2015

O Pais deixou-o pensativo. Fazer a tropa como oficial,
além da Universidade, também tinha sido a meta que o
levara a esforçar-se para tirar o 7°ano. Era uma forma, pensava,
de poder ganhar mais dinheiro, gastar mais dinheiro,
ajudar mais os pais. Conseguira. Foi uma grande vitória
entrar no Curso de Oficiais Milicianos. Fazer a tropa como
oficial era muito diferente. Mesmo na guerra, segundo
diziam. Era diferente. Dava mais dinheiro, mais respeito.
Os pais estavam todos orgulhosos, apesar de receosos por
causa da guerra. E ele também estava satisfeito por o ter conseguido.
Pelo que lhe tinham dito, não era normal alguém
da sua situação, pobre como ele, chegar a oficial. E estava ali
naquela caserna, deitado numa cama estranha mas que não
era, de modo nenhum, pior do que aquela que tinha em
casa dos pais. Lá, tinha de a partilhar com o irmão. Aqui, ao
menos, estava sozinho. Esta malta que estava consigo parecia
não ter muito este facto em consideração. Parecia mais,
na sua maioria, ter aversão a tudo isto. Aparentemente, era
malta com dinheiro, a quem isto era má novidade. Falavam
como se tudo isto tivesse sido um grande contratempo nas
suas vidas. Também significava um certo contratempo para
ele, a interrupção dum curso que mal iniciara, mas com o
qual estava entusiasmado, pelo menos o suficiente para sair
da mediocridade geral dos outros colegas de curso. Das
outras, dado que a maioria esmagadora eram mulheres. Mas,
no fundo, fora para Românicas por ser aquele de mais fácil
acesso depois dos anos que passara no seminário, isto porque
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Cabra-Cega | Do Seminário para a Guerra Colonial
nunca fora grande barra em Latim e em Grego. Não se tratava
bem do curso que gostaria de tirar.
Tinha mesmo de vir para a tropa e, é claro, sempre era
melhor ter vindo como oficial. Quanto à guerra, não sabia
nada sobre ela, a não ser que lá teria que ir parar certamente.
Sabia que morria lá gente, mas julgava que muito mais soldados
que oficiais. Iria ver como era. Um bocado de aventura,
como sempre sonhara quando era miúdo e lia as histórias aos
quadradinhos.
Estavam todos a arranjar as camas e a arrumar as coisas
nos armários. Ele fazia o mesmo, vagueando ao mesmo
tempo nos seus pensamentos, quando veio alguém que bateu
palmas e ordenou em voz imperiosa que fossem todos para a
parada. Desceram as escadarias com o tal à frente a indicar o
caminho até saírem para um pátio enorme. Era a tal parada.
Estavam lá uns oficiais e uns sargentos que os mandaram
formar em várias linhas. Ao passar todos miraram especialmente
um. Era um chinês. Nunca tinham visto um chinês, a
não ser na televisão. E muito menos lhes tinha passado pela
cabeça ver um chinês ali. Depois começaram a chamar pelos
números que lhes tinham dado à entrada e a juntá-los em
grupos de trinta. Aiveca ficou contente porque no seu grupo
tinham ficado aqueles que conhecera. Ordenaram que formassem
dois grupos à frente e dois atrás de cada um destes,
também conforme os números. Aos dois da frente chamaram
1º pelotão e 2º pelotão e aos de trás 3º, 4º, 5º e 6º. Ele
e os recém conhecidos ficaram no 2º. Chegaram-se a cada
pelotão um oficial e um sargento. Aquele oficial que tinha
uns galões com três linhas amarelas ficou especado a olhar
para aquilo. Cochicharam entre eles que seria o capitão.
- “Mas que tropa do caraças! Bem, os nossos cadetes
vão de fim-de-semana a casa e procurem arranjar essas fardas
como deve ser. Até aqui permitimos que andem nesse estado
deplorável, calças e blusões largos, ou vestidos ainda à civil.
Mas na próxima segunda-feira acabou tudo isso. Os nossos
cadetes devem apresentar-se na formatura com a farda n°2
em condições de começar a instrução. Quanto à farda n°1,
a partir desse dia ninguém sai de cá se não estiver em condições,
farda apresentável e sapatos bem engraxados. E cortem
também o cabelo. Aqui na tropa não há guedelhudos.
Na segunda-feira, quem não tiver o cabelo devidamente cortado,
não se deve ver um cabelo fora do boné, vai à máquina
zero para uma carecada. Entendido? Podem dispersar e ir
para casa.”
– “Como é que eu vou no sábado e domingo mandar
arranjar isto?”
O Rainha ainda levou uma canelada do Norberto, mas
o capitão tinha-o ouvido porque o 2º pelotão estava mesmo
à frente dele..
– “Desenrasque-se, nosso cadete. A sua mamã que
arranje, ou a sua mana, ou a sua prima. Não tenho nada a ver
com isso. É um problema seu. Desenrasque-se, nosso cadete.”
Virou-se para a companhia toda:
– “Dispersar!”
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