quarta-feira, 24 de junho de 2015

Ao fim de sete longos e incómodos dias e noites tenebrosas
em que se viu só mar, sem gaivotas nem terra à vista, o
cargueiro chegou. Eram cinco da tarde e já começava a escurecer.
Ali estava a Guiné, ficaram todos a saber que tinha uma
capital chamada Bissau. Eram aquelas luzes ao longe. Já lhes
tinham falado que iriam para a Guiné, mas isto da cidade era
nome novo. Acabava por ser a visão directa do que tinha sido
o vago conhecimento quando lhes mostravam os mapas na
escola e diziam que era o Império Colonial Português.
Encostou-se à amurada e ficou a olhar. A planície de
água amarelenta estendia-se até onde a neblina deixava ver e
o ar quente que dela se desprendia penetrou-lhe na pele e nos
pulmões. Os olhos não conseguiam ir mais além naquela paisagem
fechada. Um sufoco na voz e um suor pelo corpo todo
não o deixaram dizer nada quando alguém perto comentou
que era o rio Geba. Fora atingido pelo espanto e pelo receio
que vinham do incógnito.

“Onde é que eu vim parar!...”, murmurou Aiveca.
Os soldados que olhavam também, a seu lado, não
diziam nada mas tinham o mesmo espanto nos olhos.
As perspectivas juvenis que tivera de aventura e emoção
diluíram-se naquele ambiente mortiço, apenas apossando-se
de si o sentimento da chegada ao inevitável. Ficou apreensivo
com o que estaria para mais além. Ao pé ninguém se ria, ninguém
cantava, ninguém agitava os braços de contentamento.
O futuro era aquilo para todos, amarelo e nebuloso. Quedou-
se com o olhar perdido, tentando adivinhar o concreto
ainda invisível, apenas com o vislumbre que lhe fora dado em
Mafra, e que era vir matar ou vir morrer.
Nunca matara nem uma mosca, nem um mosquito, só
os enxotava para não o incomodarem. As abelhas e vespas
deixava-as voltear à vontade, esperando que não vissem nada
nele que lhes interessasse e sentissem que não lhes queria
mal. Aos gatos e cães só lhes fazia festas e atirava comida. Até
já fora arranhado e mordido mas nunca lhes batera. Nem
matara ou cortara o rabo às lagartixas, apenas batia com o pé
para as ver correr velozes por entre as ervas. Pegava no rabo
das osgas que via nas paredes da casa e atirava-as pela janela
fora. É verdade que, quando estava no seminário, mandara
um martelo à cabeça do Jaime e que também dera um murro
num colega cadete que o empurrou quando estavam numa
formatura, em Mafra. Mas nunca lhe passou pela cabeça
matar alguém, nem agora. E morrer, morrer foi um desejo
quando seminarista amargurado com os recalcamentos da
natureza e por causa da pressão da instituição que o amarrava,
mas depois disso queria era viver a vida que sonhara, já
não queria morrer.
– “É mau matar, e morrer também. Que vou fazer?”
A questão do mal menor, evidência da situação imposta,
o menos mau quando não há remédio. O dilema de quem
não consegue matar uma mosca face aos que vêm do mato a
gritar mata, mata, como lhe tinham dito?
Não teve tempo de cimentar qualquer ideia, porque veio
o capitão e disse que chegava uma vedeta que o ia levar a Bissau
para ir ao QG receber ordens, que os alferes podiam ir
com ele, mas que tinha de ficar um em troca com o que estava
de Oficial de Dia. Ofereceu-se.
– “Fico eu. Agora não estou com disposição para andar
mais de barco.”
Agora não estava nada para isso, não imaginando, é
claro, para o que estava destinado no dia seguinte. A vedeta
levou o capitão e os outros alferes, Aiveca ficou com todos os
outros no “transatlântico” que os trouxera durante sete dias.
Foi para o beliche e lá ficou estendido.
Dormitava quando abriram a porta de rompante. O Zé
Pedro estava excitado.
– “É pá, não sabes o que perdeste. A cidade é pequena
e não vale nada, só se vêem pretos e tropa por todo o lado,
mas tem uns bares porreiros, há marisco e cerveja ao preço
da chuva. Não quiseste vir, agora estás feito, o Mendonça
disse que amanhã logo de manhã vamos numa LDM pelo rio
acima até ao nosso destino.”
– “Feito já eu estou há muito tempo. Sei lá o que é uma
LDM. E, já agora, qual vai ser o nosso destino?”
– “É pá, a LDM é uma lancha onde nos vão meter a
todos, é uma lancha de desembarque, chamam-lhe média.
Quanto ao sítio para onde vamos o capitão disse que é sigiloso.”
– “Tá bem, caguei, tanto me faz. Deve ser o mesmo em
todo o lado.”
Só depois do almoço é que a tal LDM encostou à bochecha
do barco. Com ordens e reparos das tripulações de cima
e de baixo, a escada de portaló foi baixada e presa na lancha,
após o que todos foram descendo, ajoujados de sacos, malas
e outras bagagens, os soldados e sargentos para o convés e os
oficiais no alto, perto da cabine. Largou por águas tão claras
como as do mar, nada que se parecesse com as que estavam
quando tinham chegado. Seguiu ronronando os motores.
Iam quatro fuzileiros morenos de sol, muito bem tratados,
grande físico. Causaram impressão a todos.
Batia um sol constantemente importuno e asfixiante
mas parecia um cruzeiro turístico, todos procurando, dum
lado e doutro, encontrar pontos altos para ver a paisagem. Os
alferes e o capitão viam melhor porque estavam lá alto ao pé
da cabine. Rio largo, maravilha, lembrava-o das travessias do
Tejo debaixo do sol escaldante do Verão. Mas não, não havia
Cacilhas à vista, nem os guindastes gigantes da Lisnave ou,
mais longe, as chaminés fumegantes da CUF, no Barreiro.
Não ia apanhar a camioneta para a Costa da Caparica nem ia
atravessar o Sado para Troia, onde conhecera a Natália.
– “Que raio de lembrança agora!”, e Aiveca deu um pontapé
no varandim.
– “O que foi?”, perguntou o capitão, os outros olharam
para ele.
– “Nada de especial, meu capitão. Pareceu-me que estava
aqui um bicho.”

Levantou a cabeça e mostrou-se interessado também na
paisagem, era para não lhe dizerem mais nada.
Gerou-se grande agitação ao pé da cabine. O rio estreitara
muito, com densa floresta nas margens, com curvas
e contracurvas sempre a aparecerem. O marinheiro agarrado
à metralhadora pesada dizia que na próxima curva
costumavam ser atacados, provocando grande apreensão nos
rostos de todos. O alferes Castro gritava:
– “Onde estão as nossas armas?”
Mas o capitão dizia:
– “Quando chegarmos ao destino é que as temos.”
– “Estão a gozar com os periquitos”, rosnava o Zé Pedro,
de riso amarelo.
O Mendonça gritava para que tropa no convés se baixasse.
– “Já começam a foder-nos. Não sei se serão eles ou são
os nossos. Ou uns e outros”, comentou o Aprígio.
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Na gare marítima de Alcântara houve, primeiro, a despedida 
das famílias.

– “Não vai ser muito tempo, só entre cinco e dez minutos.
Quanto mais tempo pior é, mais custa. Quando tocar o
clarim vem tudo para a formatura. Vai estar lá um representante
do Ministro do Exército para passar revista”, avisou o
capitão.
Estavam lá os pais e a irmã de Aiveca.
– “Meu querido filho, tem muito cuidado”, repetia a mãe
agarrada a ele e em lágrimas, “não te metas em problemas.”
– “Ó mãe, esteja descansada que eu vou ter muito cuidado
e não vou arranjar nenhum problema. Eu prometo,
mãe.”
Não podia ser senão assim. Não ia dizer que ter cuidado
podia não chegar, nem que não era ele que ia arranjar problemas,
que os outros é que lhos iam arranjar
O pai não chorava, estava sério, mas transparecia-lhe no
olhar um sinal de orgulho quando olhava para os galões de
alferes no camuflado do filho.
– “Quero-te cá de volta, filho”, disse-lhe com um abraço.
O clarim tocara para formatura.
– “Cá estarei, claro”, abraçou-se a todos e despediu-se
com uma brincadeira para desvanecer tristezas:
– “Adeus até ao meu regresso.”.
Depois de o coronel representante do Ministro do Exército
ter feito revista à formatura marcharam para o barco.
Ali estava ele, pequeno, nada igual aos que se viam na
televisão quando transmitiam embarques de tropas. Tinha
escrito no caso em letras garrafais «Ana Mafalda» e mais
parecia um navio de carga do que um transporte para pessoas.

– “É nesta merda que a gente vai para a Guiné, foda-se”,
barafustou o Cosme à maneira, minhoto de Braga.
Igual decepção nos outros membros do pelotão. Mas
houve um que reagiu com humor.
– “É pá, vê-se logo que não és de Lisboa. O barco onde
vamos está do lado de lá e este é o cacilheiro para a outra
banda”, era o Santos, reguila do Bairro da Liberdade.
Deu para todos se rirem, mesmo os que não perceberam
a piada, foi por contágio. Pararam a risota e os comentários
quando chegaram ao pé das senhoras do Movimento Nacional
Feminino. Estavam à entrada da escada de portaló a distribuir
tabaco, calendários, bolachas, santinhos e palavras de
animação.

– “Só me faltavam estas gajas”, murmurou Aiveca.
“Muito obrigado, mas só quero tabaco. Não gosto de bolachas,
já tenho calendário e muitos santinhos, e, por favor, não
me diga essas coisas para me animar aqui em frente dos soldados
senão fico mal visto.” E em tom afectado: “Percebe?”
Os soldados riram. Mas a mulher, uma quarentona de ar
chique e cabeleira empoada, estendeu-lhe com má cara um
maço de tabaco, um Português Suave. Só fumara uma vez ou
outra, mas nunca um sem filtro. Iria dá-lo a um soldado qualquer.
Oficiais e sargentos foram chamados à sala da primeira
classe, o representante do Ministro do Exército ia dizer umas
palavras de despedida.
– “Mais uma”, comentou Aiveca.
– “Diz que não és católico”, gozou o Castro.
– “Tu é que devias ir dizer-lhe para ir mas é falar aos soldados,
que bem precisam, como tu dachas.”
Muitas felicidades, orgulho na defesa dos interesses da
pátria, e outras coisas do género. O costume já ouvido. Mas
foi curto, vá lá. Não tinha mais nada para dizer, claro.
Quando estavam todos no convés, o capitão, que estava
acompanhado do comandante do navio, chamou os alferes
para lhes indicar como devia ser distribuído o pessoal pelos
alojamentos.
As bagagens já estavam nos locais onde iam ficar, tinham
vindo em viaturas logo de manhã, cada um que procurasse
a sua. Os alferes, sargentos e furriéis ficavam na segunda e
terceira classe. Ele ficava em primeira classe, onde estava o
comandante do navio, o imediato e o oficial das máquinas.
Estariam lá também uns civis que vinham à boleia. Os soldados
iam para o porão, estavam lá montados beliches de ferro
com enxergas de palha.
– “Transmitam isto ao pessoal quando o barco começar
a andar. Há aí marinheiros para dizer onde é”, terminou
assim e afastou-se com o comandante.
– “Temos de agarrar os camarotes de segunda classe,
senão os furriéis papam-nos”, preocupou-se o Castro.
– “Cá por mim preferia os de primeira. São melhores,
com certeza”, disse o Zé Pedro em tom crítico.
- “Vocês são tramados. Vão de borla e ainda estão com
exigências”, o Aprígio olhava para eles ironicamente.
Aiveca ouvia-os mas estava com os olhos postos noutro
local do convés.
– “Vêem aqueles gajos ali?”, e indicou com a cabeça.
“Devem ser os tais civis que vieram à boleia. Quem serão
eles?”
– “Devem ser colonos que regressam à Guiné”, palpitou
o Zé Pedro.
– “Não me parece. Se fossem colonos achas que se
metiam nesta porcaria? Iam mas é de avião, acho eu. Aliás,
mesmo que viessem não era à boleia, como disse o capitão.
Tinham de pagar.”
– “Vejam o ar deles”, disse o Aprígio. “Fatinho e gravata
escura, cabelo cheio de brilhantina e cara de burgessos. Cheira-
me que são polícias, se calhar até são da PIDE.”
– “É pá, se é isso não está certo.”
Todos interrogaram o Castro com o olhar a perguntar
porquê.
– “São quatro e, se são polícias, ou da PIDE ou coisa
parecida, deviam ir para a segunda ou terceira classe. Nós,
que somos oficiais, é que devíamos ir para a primeira.”
– “Eles deviam ir mas é para o porão.”
– “Não exageres, Aprígio. Coitados dos soldados”, disse
Aiveca.
Foi quando sentiram o trepidar dos motores do navio e
o estridente apito da buzina. Correram para a amurada.
Quando o barco zarpou pela barra do Tejo estava toda a
companhia agitando as mãos em leque, tentavam estancar as
lágrimas que escorriam pelo cais. Alguns risonhos, pareciam
dizer eu vou ali e já venho. Outros estavam sérios, com ar de
quem acha que não vale a pena chorar. E lá, no terraço-varanda,
havia braços e mãos a querer agarrá-los e lenços, uns
a dizer adeus e outros, a maioria, a limpar lágrimas. É assim,
o que é que havia de fazer? Aiveca até estava sereno, não lhe
dava nem para sorrir nem para ficar sério. Os dados já estavam
lançados, logo veria o que davam.
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Foram promovidos a alferes antes do embarque. Ia haver
também aquilo a que chamaram cerimónia de despedida, a
que se seguiria uma missa na parada.

Aiveca não tinha vontade nenhuma de assistir à missa
quando soube que ia haver. Com muito menos ficou quando
o capitão, que os tinha reunido para falar do que havia, acrescentou
que era o major-capelão Euclides que ia celebrar a
missa.
– “Que filho da puta”, sussurrou entre dentes.
Os outros alferes olharam para ele.
– “Disse alguma coisa, Aiveca?”, perguntou o capitão.
Ainda bem que não o ouvira.
– “Meu capitão, estava a dizer que não vou à missa”, respondeu.
Agora eram todos espantados, inclusive o capitão. Viu
que tinha de dar uma explicação, mas não ia dar a verdadeira.
- “É que eu não sou católico”, foi a razão mais rápida que
encontrou.
Admiração geral. O capitão ficou hesitante, parecia
embuchado, sem palavras.
– “Tá bem, se é assim…”, lá acabou por dizer, mas pareceu
contrariado por não ter argumentos.
Ainda se lembrava da conversa parva do padre Euclides
quando o encontrara no Cais do Sodré. Era uma besta, não
gostava nada dele. Já sabia que ele e o padre Gama tinham
ido para capelães-militares, o Gonçalves dissera-lhe quando
estava no RI1, mas estava longe de ver aquele gajo ali. Se
fosse o Gama era diferente. Ele fora o seu professor da instrução
primária no colégio dos padres, dera-lhe uma ou outra
palmatoada, é verdade, mas fora sempre um bom amigo dos
miúdos. Se fosse ele até iria à missa e gostaria de falar com ele
no final.
Meteu-se no bar de oficiais durante a missa mas não se
livrou de a ouvir e ao sermão do Euclides, porque os altifalantes
gritavam para todo o lado. Nada de novidade, já sabia
que daquele não sairia outra coisa. Fez uma bela dissertação
sobre o amor à pátria, a defesa do património nacional, etc.
Esqueceu-se é de falar contra os comunistas.
Passado algum tempo depois de tudo terminar apareceram
os outros alferes. O Zé Pedro olhou para o copo de
Aiveca e disse ao barista para lhe trazer também um whisky.
– “Então, gostaram da missa?”, perguntou Aiveca.
O Castro e o Zé Pedro disseram que sim, mas sem
grande ênfase. Estão com receio de ferir as minhas crenças,
pensou com um sorriso irónico. Ficaram silenciosos depois.
– “Olha lá”, decidiu-se o Aprígio, que não dissera que
sim nem que não, “afinal qual é a tua religião?”
– “Estava a ver que não me perguntavam.” Riu-se. “Eu
vou dizer. Mas não vão bufar nada ao capitão, tá bem?”.
Todos abanaram a cabeça e disseram seriamente que
nem pensar, pá.
– “Ó meus amigos, eu tenho de ser católico, apostólico,
romano. Baptizaram-me quando era bebé, ainda não sabia
dizer nem que sim nem que não, só me deu para chorar, é o
que dizem os meus pais. Depois, quando era puto e andava
num colégio de padres, fiz a comunhão solene e fui crismado.
Se dissesse que não queria corriam comigo, mas nem pensar
pois estava lá de borla e os meus pais não me podiam pôr
noutra escola. Mas, olhem, na altura até achei piada àquilo,
foi giro. É isto. Como vêem sou oficialmente católico desde a
nascença, como a maioria em Portugal.”
Ficaram perplexos. Aiveca apercebeu-se que esperavam
uma novidade, algo que desse para fazerem mais perguntas.
O Aprígio, sobretudo, pareceu desiludido. Só o Zé Pedro
reagiu.
– “Ó Aiveca, mas, então, porque não quiseste ir à missa?”
– “Não quis porque já estou farto de missas, é isso.”
Não quis dizer que não gostava do major-capelão para
não ter que explicar porquê. Nem porque estava farto. Fizera
contas e chegara à conclusão que assistira a mais de 4.200
missas, contando as do seminário e as do colégio dos padres.
Nunca lhes dissera que tinha estado no seminário e não era
agora que ia dizer.
– “É a tua maneira de ver”, continuou o Zé Pedro, ”mas
eu acho que esta missa foi importante para malta que vai para
a guerra. Deu-nos mais calma e confiança na ajuda de Deus”.
– “Talvez, no geral, uma missa tenha esse objectivo, tá
bem, pode ser que sim. Mas o desta não foi este. Foi antes
um apelo à guerra, bem patente no sermão do major-capelão,
nada diferente do que disse o comandante do Regimento na
cerimónia da despedida nem do que dizem os membros do
Governo.”
– “Isso é verdade, é todos o mesmo”, disse o Aprígio. “E
olhem, se eu não fosse para a guerra é que era uma grande
ajuda de Deus. Podem ter a certeza que assim é que ficaria
bestialmente calmo.”
– “Ó Aprígio, estou a ver que tu e o Aiveca não estão a
entender.”
– “Diga lá, doutor Castro.”
Aiveca sorriu sem o hostilizar, embora imaginasse que ia
sair dali palermice.
– “Não gozes. Os discursos de Salazar visam mentalizar
o povo para a necessidade de fazer a guerra e o que disse
o comandante do Regimento e o sermão do padre tiveram
como objectivo motivar os soldados para se empenharem
nela. Acho importante isso.”
– “O coronel e o Salazar percebo, é o papel deles. O
padre é que não tinha nada que se meter nisso, fazer pandã
com eles, não é esse o papel dele. Era melhor que glosasse
aquela do Gilbert Bécaud que tu conheces lá de Lamego.”
Quis ser mau e cantou: “Et maintenant que vais-je faire, De
tout ce temps que sera ma vie, De tous ces gens qui m’indiffèrent.”
O Aprígio e o Zé Pedro riam-se, o Castro estava sério.
– “Disto é que ele devia falar”, disse Aiveca acabando de
cantar, “mas estou a ver que não percebem nada de francês,
nem tu, Castro. Ouvias sem saber o que o Bécaud dizia. Só
fazia que saltasses da cama.”
O Castro estava vermelho e parecia querer explodir. O
capitão salvou a situação. Tinha entrado no bar e chegara-se
à mesa deles.
– “Estou a ver que estão contentes, até cantam. Tá bom.”
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Passados três meses, quando a instrução acabou, continuaram
no RI1 para o IAO. Foi quando o capitão disse que
já estava assente que a companhia ia para a Guiné.
No dia desse anúncio, depois de jantar decidiu apanhar
um comboio para Lisboa. Não havia nada que fazer nessa
noite e não lhe apeteceu nada ficar no quartel. Os outros perguntaram-
lhe se ia pirar-se. Não reparou se era a sério ou a
brincar.
– “Não me vou pirar, não. Não vos ia abandonar. Vou só
dar aos meus velhotes esta boa notícia da Guiné.”
Quando chegou a casa ficou a saber que a cautela que o
tipo do Maxime lhe tinha oferecido tinha dado dois contos
e quinhentos. Estavam contentes, era dinheiro muito bem-
-vindo. Mas as coisas mudaram quando lhes disse que ia para
a Guiné. O pai ficou calado e preocupado, a mãe e a irmã
choraram. Não aguentou e disse que tinha de ir ter com uns
amigos da tropa.
Foi pela Rua D. Pedro V até ao Largo da Misericórdia e
meteu-se pela Travessa da Queimada. Entrou no primeiro
bar que viu.

Sentou-se ao balcão perto de um homem que lá estava.
– “Dá-me licença que me sente aqui?”
– “Faz favor”
– “Obrigado. Um gin tónico”, pediu ao barman.
Não era a primeira vez que ali vinha, mas não se lembrava
do nome, nem vira o placard da entrada. Podia divagar
a partir dele, da sua configuração interna, daquilo que se via
através dos seus frequentadores, do mundo que encerrava em
si e fora de si. Mas não interessava, os seus pensamentos estavam
longe dali.
– “Olhe. Mais outro gin tónico.”
Afinal achava que sim. Era importante o nome das coisas,
dos seres, dos lugares Os nomes têm muito a ver com a
natureza das coisas, dos seres e do seu ambiente. Quem diz
rosa sente tudo o que a rosa é, o cheiro, as pétalas coloridas, o
redondo belo. Quando se fala no Marquês todos sabem que é
a praça onde está o Marquês de Pombal com o leão a tiracolo.
Não. Está aos pés, é verdade. Mas faz tanto parte dele que é
como se o tivesse a tiracolo. E mulher? Mulher é amor, seios,
pernas, ancas, sexo. Os nomes não são unicamente nomes,
são coisas concretas. Quando se profere um nome tem-se
automaticamente um retrato, uma vivência e um conjunto
de características que só se conseguiriam descrever em frases
mais ou menos extensas, mais ou menos difíceis de explicar.
O nome é a síntese que se tem de tudo isso.
– “Mais um.” Levantou o copo mas o barman não viu e
teve de bater no copo com a garrafa.
– “Mais um gin tónico.”
Dar nomes economiza explicações. Aquela mulher é
linda como uma flor, os bidonvilles de Champigny são piores
que o Casal Ventoso diz tudo, sem mais explicações. E
Guiné? Diz tudo também. Terra longínqua de guerra, mortos
e feridos. E se à flor se chamasse outro nome? Por exemplo
esterco ou trampa. E se à trampa se chamasse rosa? E se à
Guiné se chamasse Portugal? Estávamos a introduzir aberrações
no nosso código de entendimento, subverteríamos esse
código.
– “Traga mais um, se faz favor.”
– “Sente-se bem? Já vai no quarto… Não quer comer
nada?”, perguntou o homem do lado.
– “Não, já jantei. Mas tem razão. Traga-me antes um
whisky com duas pedrinhas de gelo”, disse ao barman.
O homem não dissera nada até ali e ele ficou na dúvida
se estivera a falar para ele ou se tinha estado só a pensar.
– “Sabe o que quer dizer Guiné?”, perguntou-lhe encarando-
o. “Guiné quer dizer mortos e estropiados.”
Não teve resposta nem comentários e foi bebendo o
whisky.
– “Tenho de ir andando, tenho de voltar ao quartel na
Amadora”, disse quando terminou e chamou o barman para
pagar.
– “Não quer que o ajude? Tenho aí carro e posso levá-lo”,
ofereceu-se o homem do lado.
– “Não, obrigado. Estou como o aço. Dentro de alguns
dias até vou embarcar para a Guiné, está a ver? Gosto em
conhecê-lo. Adeus até ao meu regresso. Não se ria, senão
choro.” Levantou-se e caiu no chão.
Deu por si ao sentir que o abanavam. Estava deitado no
banco traseiro de um carro estacionado perto da porta do
quartel.
– “Já está melhor?”
Soergueu-se e abriu os olhos. Deu de caras com o seu
companheiro silencioso do bar.
208
João Gaspar Carrasqueira
– “Deitei-o aí para você dormir e ver se lhe passava.
Mas olhe que me vi um bocado atrapalhado. Se não fosse o
empregado do bar ajudar-me não sei se conseguia tirá-lo de
lá.”
Aiveca apercebeu-se da situação e ficou envergonhado.
– “Que chatice. Peço muita desculpa.”
– “Não tem nada que pedir desculpa. Já estamos perto
do quartel mas deixe-se ficar aí um bocado e beba água para
ver se dilui essa carga”, e estendeu-lhe uma garrafa de água.
“Nada mau que não me vomitou o carro.”
– “Tenho mesmo que lhe pedir desculpa. Tinha vindo
de casa dos meus pais e deixei-os a chorar depois de lhes ter
dito que ia para a Guiné. Estava um bocado desorientado
mas não devia ter bebido tanto.”
– “Eu sei como é isso. Infelizmente sei”, a voz embargou-
-se-lhe”, um dos meus irmãos, era o mais novo, morreu em
Angola”.
Fez uma pausa e Aiveca olhou para ele, pesaroso.
– “Antes de embarcar também andou muito em baixo”,
continuava com a voz embargada. “Quando você se sentou
ao meu lado vi logo que não estava bem, era tal e qual como
estava o meu irmão. A sua conversa ainda mais me convenceu
disso.”
– “Mas eu estive a falar?”. Viu que ele tinha ficado admirado.
“Desculpe a pergunta. É que eu, a certa altura, não
sabia se estava a falar para alguém ou para mim próprio, cheguei
a julgar que estava só com os meus pensamentos.”
– “Falou e falou muito, pode ter a certeza. Achei por
bem não interrompê-lo e deixá-lo falar à vontade. É o melhor
quando as pessoas estão assim. Ainda bem que só estávamos
os dois ao balcão. Se estivesse mais alguém podia haver problemas,
é que há pessoas que gostam de se meter e, às vezes,
não da melhor maneira. Até o homem do bar estava atento
à sua conversa mas só ouvia. Esse pessoal já tem muita experiência
de coisas destas e, normalmente, está calado.”
Parou uns momentos.
– “Acha que já pode andar?”
- “Já, acho que sim.”
Abriu a porta do carro e saiu. Sentiu a cabeça um bocado
azamboada e encostou-se.
– “É melhor eu ir consigo até à porta, é mais seguro”,
disse o outro, já fora do carro também.
Aceitou, porque sentiu que não estava muito seguro.
– “Tem aqui o meu cartão. Quando puder gostava de
falar consigo. Noutras circunstâncias, claro”, o homem estendeu-
lhe um cartão-de-visita.
Aiveca olhou para o homem. Ainda conseguiu perceber
o que ele dizia.
– “Com todo o gosto”, disse, guardando o cartão.
– “Deixe-me eu falar agora. É melhor para não se aperceberem
de qualquer estranheza”, aconselhou o homem
quando ele, a custo, tocou à campainha.
Abanou a cabeça várias vezes a dizer que sim. Um soldado
abriu a porta e mirou-os interrogativamente.
– “Eu chamo-me Rogério Dores e sou médico. Encontrei
este militar que se estava a sentir mal, tive de o assistir.
Como já está melhor vim trazê-lo ao quartel.”
Aiveca abriu os olhos de espanto. O soldado ficou calado
uns segundos.
– “Ó meu sargento!”, gritou virando a cabeça para trás.
Apareceu o Sargento de Dia e o médico repetiu-lhe o
que dissera ao soldado.
– “Vai chamar o Oficial de Dia”, disse o sargento ao soldado.
– “Eu sei quem é. É um dos aspirantes da companhia
que está aqui para o IAO. Obrigado, doutor.”
Era o tenente que estava de dia com expressão irónica
nos olhos depois de ouvir a mesma explicação.
– “Muito obrigado, senhor doutor”, e Aiveca apertou-
-lhe a mão efusivamente antes de fecharem a porta.
– “Vai-te lá deitar, pá”, disse-lhe o tenente virando-se,
depois, para o soldado: “Acompanha o nosso aspirante aos
quartos dos oficiais”, ordenou-lhe.
O soldado levou-o à zona dos quartos dos oficiais. Não
estava nas melhores condições mas conseguiu acertar com o
quarto dos aspirantes da companhia. Os outros já lá estavam
e dormiam. Deitou-se na cama vazia sem se despir e adormeceu
passados poucos minutos.
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Deixou de pensar quando entrou no gabinete do capitão
Ferreira para ver, então, o que era o tal jornal de parede. Ele
apontou-lhe para um monte de papéis que tinha à beira da
secretária.

– “Olhe, estão aqui umas fotografias, uns recortes de jornais
e revistas e comunicados do SIPFA.”, parou dois segundos
porque viu que o aspirante não sabia o que era aquilo.
“É o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas.”
E continuou. “São coisas que fui juntando depois que tive
a ideia do jornal de parede. Há aí material que, com certeza,
já está desactualizado mas há outro mais recente. Para já vai
fazer uma selecção disto para fazer o jornal de parede, veja
especialmente os mais recentes, nomeadamente aqueles que
têm uma cruzinha em cima, são uns que eu já escolhi. O seu
trabalho vai ser ir vendo o que vai chegando, fazer a selecção
e mostrar-me antes de publicar.”
– “Mas, meu capitão, não é melhor primeiro, como me
tinha dito, irmos ver quais os conteúdos?”
Fez um gesto de impaciência.
– “Ó nosso aspirante, não me diga que está a pensar que
vai pôr ali no placard resenhas críticas sobre livros, já que
esteve em Letras, ou, então, fotografias de coristas do Parque
Mayer e tipas nuas para animar o pessoal. Montes disto têm
os soldados no interior dos armários da caserna.” Fez um trejeito
irónico. “E não lhe passa pela cabeça, certamente, que
vamos afixar lá fora comunicados dos comunistas.” Riu-se.
“O que vai levar dar-lhe-á a ideia do que se pretende, guie-se
por aí no futuro. Percebe?”
O sacana estava a mangar com ele mas não estava para se
chatear. Quero que te vás lixar, pensou.
– “Sim, estou a perceber, meu capitão.”
– “Pronto. Pode levar isso.”
Pegou na papelada e saiu. Numa mesa vazia do gabinete
ao lado espalhou aquilo tudo. Eram várias fotografias, umas
páginas de jornais e alguns comunicados do tal SIPFA. Foi
vendo um a um. Fotografias da imposição de medalhas a 10
de Junho no Terreiro do Paço, um recorte de jornal sobre o
acontecimento, também algumas com soldados sorridentes
ao pé de montes de armamento no chão e umas com pretos
de mãos atadas e outros esticados no chão, também uma da
inauguração da ponte no Tejo. Quase tudo estava assinalado
com a cruzinha e estavam escritas nas costas. Armamento
capturado aos terroristas, dia da raça, terroristas presos, terroristas
mortos, ponte Salazar, e outros dizeres. Um artigo de
jornal com título em destaque “Honrai a pátria que a pátria
vos contempla”, era o discurso de um tal José Veiga Simão no
10 de Junho, tinha a cruz. Havia uma página inteira com um
discurso que viu que era de Salazar, era mais antiga mas tinha
também a cruz.
Observou melhor as fotografias. Não as do 10 de Junho
e da ponte, estava farto de ver disso nos jornais e na televisão,
as outras é que o interessaram. Aquelas do armamento
espantaram-no, viu ali coisas que nunca tinha visto nem
sabia que existiam, metralhadoras e bazucas esquisitas. Os
soldados, de arma a tiracolo ou nas mãos, estavam de cara
e olhos radiantes de satisfação, mais do que aqueles que nas
mensagens de Natal desejavam um ano novo cheio de “propriedades.”
Havia um que, de olhar feroz e com a bota em
cima de um preto que estava no chão, tinha a arma apontada
para a cabeça dele parecendo dizer fui eu que o matei. Pose
para a foto, era armanço, de certeza. Já tinha lido em diagonal
os comunicados do SIPFA que estavam ali e viu que estava
tudo de acordo: as nossas forças tinham realizado várias
acções com sucesso, tinham apanhado muito armamento,
aprisionado e matado vários terroristas em Angola, Guiné
e Moçambique. As fotografias confirmavam-no, eram para
provar isso, evidentemente. E os nossos mortos? Pergunta
retórica, ali não havia resposta, já sabia. Havia quem chorasse
a morte na guerra de filhos e amigos, tinha conhecimento
de vários que o pai lhe contara e que ouvira falar em Mafra.
Mas que interessava isso? O que estava ali era para mostrar à
soldadesca que a guerra estava bestial, que o pessoal andava
na maior a dar porrada nos pretos, cambada de bandidos,,,
parou uns segundos e exclamou “que filha da putice!”
– “Há algum problema, meu aspirante?”
Virou a cabeça. Que porra! Estava tão embrenhado
naquilo que se tinha esquecido que na secretária do canto
estava o cabo escriturário.
– “Não há nada, nosso cabo, não há nada. Estava aqui
a pensar numa coisa que me aconteceu há tempos e de que
não gostei. Pensei alto demais, estou a ver. Não há problema
nenhum, tá tudo bem.”
Pareceu-lhe que o cabo tinha aceitado a explicação.
Tinha de aceitar, ele sabia lá qual era a filhadaputice. De certeza
que não imaginava o que lhe ia na cabeça.
Agarrou nos recortes de jornais. Aquele das medalhas no
Terreiro do Paço já sabia, eram os caquéticos Tomaz e Salazar
a distribuir cruzes de guerra a soldados e marinheiros. Enfim,
fabricar heróis para animar o zé-povinho e motivar os que
vão morrer, os tais de que não se quer falar.
Sabia como era. Quando estava no seminário, por altura
dos primeiros acontecimentos de Angola, tinham deixado
ver a televisão. Estava na merda e já começara a estar desmotivado
daquilo. Tivera um momento de ânimo e sonho.
Depois de ouvir as façanhas dos soldados portugueses em
Angola, pusera-se no lugar deles. Sonhou com mil combates
nos quais era o herói. Teve alguns sonhos desses. A maior
parte das vezes saía vencedor, mas havia vezes em que morria.
No entanto, era sempre cercado de glória, sempre como
um herói, sempre louvado e recordado pelos vivos. E, mesmo
depois de morto, assistia à sua exaltação, ouvia os comentários
elogiosos e o seu nome pronunciado por milhares de
bocas, com uma série infinda de pontos de exclamação e
admiração. Eram sonhos. Mas isso passara-lhe depressa porque
tivera de viver permanentemente com a realidade.
Estava a ver o artigo de través e saltou-lhe uma linha que
o interessou. Um homem tinha recebido uma medalha que
fora atribuída ao filho a título póstumo. Ah, ali estava um
morto, afinal. Mas não, sonhar com isto não pode ser. Nem
o filho queria morrer, ninguém quer, e de certeza que nem o
pobre homem queria estar ali em vez do filho. Interessava-lhe
que ele fosse herói morto? Obrigaram-no a estar lá, a fazer
aquele papel para o espectáculo, isso é que foi. Era mesmo
filhadaputice! Olhou para o lado. O cabo continuava com
os olhos no teclado da remington, pareceu-lhe. Vá lá, desta
vez não falara alto. Também viu um outro recorte com fotografias
de um brigadeiro e uns tenentes-coronéis que tinham
sido condecorados. Mas tinha sido no Porto e, curioso, no
Quartel General de lá e não em qualquer praça pública.
Aqueles não davam para o espectáculo, está visto, não davam
para a animar o pagode, nem havia um a título póstumo. Ah,
não tinha a cruz. O capitão tinha pensado como ele, estava
a ver. Claro que o zé soldado se estava a cagar para aqueles
gajos. Esperto, sim senhor. O do discurso do tal Simão, ou
Veiga Simão, não lhe interessou. Sabia lá quem era ele, mas
está bem, ia pô-lo no placard porque tinha a cruzinha. Mas
o do Salazar até queria ler, queria ver o que é que ele dizia.
Depois de uma breve referência no início à subversão internacional,
dizia ele, contra as nossas províncias ultramarinas
e ao terrorismo, espalhava-se até ao fim a elogiar o seu papel
de salvador das finanças nacionais. Que raio, pensou depois
de ler aquilo. O que é que os soldados percebem de finanças?
Nada de certeza, nem ele percebia. Além disso, era uma
página inteira que iria ocupar uma grande parte do placard.
Estava mesmo a vê-los interessados em ler aquilo, que nem
falava de futebol. E era se soubessem ler. Mas que se lixe,
tinha de o pôr, queria lá saber.
Olhou para aquilo, juntou tudo e ocorreu-lhe uma ideia
para a exposição.
“Ó nosso cabo, dê-me aí uma folha de papel e uma
caneta, ou um lápis.”
Escreveu quatro frases pequenas, eram os temas para
ordenar aquilo.
– “Agora bata-me isto à máquina, bastante espaçado
uma da outra, em maiúsculas. E arranje-me uma tesoura que
eu depois quero cortar cada frase. E diga a um faxina para
trazer o placard da companhia para cima desta mesa, e arranje-
me pioneses.”
Mais uma hora e o placard ficou pronto com aquilo
tudo e no local do costume. Foi ter com o capitão Ferreira
dizer-lhe que já estava e acompanhou-o para ir ver.
– “É mesmo isto, está perfeito”, disse ele depois de mirar
detalhadamente, “bem me parecia que você era o homem
indicado.” Olhou para o relógio. “Está quase a tocar para o
rancho, é hora de jantar. Vou até casa, hoje ficamos por aqui.
Você pode ir já também.”
– “Eu não vou, meu capitão.”
– “Mas você é de Lisboa, não é?”-
– “Sou, mas só vou a casa ao fim-de-semana.”
– “É pá, então isso vai ser complicado hoje, aspirante
Aiveca. O vagomestre só está a contar com jantares para
os oficiais que estão de dia ao regimento e à companhia. A
messe e o bar de oficiais não funcionam à noite. Se você me
tivesse dito antes… Bem, amanhã tratamos disso, mas hoje
vai ter de ir jantar lá fora.”
Foi-se.
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No final do 2º Ciclo houve a Semana de Campo. O
Batalhão do COM foi-se instalar nos arredores da Serra do
Montejunto. Foi criado um chamado «inimigo», formado
por elementos das três companhias, Aiveca foi um dos escolhidos
e ficou contente. Vai ser giro, pensou.
E foram cinco dias interessantes e de algum divertimento.
O «inimigo» era o único vestido de camuflado, andava
livre e procurava furtar-se às batidas e deslocações das
companhias do Batalhão. Quando passavam por alguma
povoação eram olhados com curiosidade. Os camuflados
davam nas vistas.
– “Olha, vão para a guerra”, diziam alguns, simplesmente.
Mas, em alguns sítios, havia homens mais objectivos,
pensaram os do «inimigo»:
– “Olhem, venham aqui à adega beber um copo. Bem
precisam.”
E aproveitavam. Foram algumas tainadas com vinho da
Estremadura e pão com chouriço.
– “Como «inimigo» têm de se desenrascar. Arranjem-
-se como puderem”, tinha dito o tenente-coronel comandante
do Batalhão.
Por isso, sempre que podiam, procuravam comer qualquer
coisa nas tabernas das aldeias por onde passavam. Mas
também tinham, às vezes, que apanhar fruta nas árvores e,
até, colher favas e desenterrar algumas cenouras e alguns
nabos para comer crus. Procuravam não ser vistos, no
entanto foram apanhados uma vez ou outra. Os proprietários
não se chateavam quando explicavam a situação e diziam
não ter que comer e estavam com pressa.
Dormir foi mais complicado. Tinham de ficar no meio
de mato e debaixo das árvores. Só uma vez o tenente que os
comandava conseguiu que dormissem numa quinta. Falou
com o feitor, ele foi lá dentro e voltou dizendo:
– “A senhora condessa deu autorização para dormirem
no palheiro.”
– “Condessa?!”, todos abriram os olhos de espanto.
– “Esta quinta é da D. Maria Teresa de Noronha, a
fadista, que é também condessa de Sabrosa.”
O tenente deu esta explicação, devia ter recebido a informação
quando falara com o feitor.
Este disse, apontando para um anexo:
– “Vou ali desmanchar uns fardos de palha para poderem
dormir lá.”

Foi uma boa noite, melhor que as passadas a céu aberto.
Num dia em que estavam a comer na taberna de uma
aldeia o taberneiro disse-lhes que Portugal ia jogar à noite
contra a Hungria. Repararam que havia lá televisão.
– “Meu tenente”, disse o Arrojado, “bem podíamos ver
o jogo.”
Todos aprovaram, de olhos brilhantes. O tenente hesitou,
bebeu um trago e acabou por dizer:
– “Tá bem. Esta noite pode ser.”
Recebeu uma salva de palmas. Não o conheciam, até
porque ele não era instrutor em nenhuma das companhias
do COM. Era da guarnição da EPI e tinha sido destacado
para comandar o «inimigo». Mas já tinham verificado que
era um tipo porreiro.
– “Esta noite pode ser, mas se fosse amanhã não”, continuou
ele.
Sabiam que ele estava, evidentemente, dentro da programação
das acções da Semana de Campo. Todos olharam
interrogativamente.
– “É que amanhã à noite vamos ter que fazer. Logo
digo.”
Grande gritaria quando Portugal metia um golo. No
final, quando Portugal ganhou 3-1 foi a festa, com o «inimigo
» e os aldeões presentes de copos no ar.
À saída, o tenente também se mostrou contente:
– “Vamos comemorar”, disse.
Tirou dois very-lights que tinha no bolço, lançou-os
e duas estrelas enormes e muito brilhantes iluminaram a
aldeia. Todos de olhar no céu, encantados.
Encontraram depois um local perto e dormiram aí no
meio de umas oliveiras. De manhã deram umas voltas em
bicha de pirilau pela zona. Cerca do meio-dia, por indicação
do tenente, como estavam perto da aldeia da noite anterior,
foram almoçar na mesma taberna.
Já estavam a comer há dez minutos quando entrou de
rompante pela porta um grupo armado.
– “Estão presos!”, gritou o alferes que o acompanhava.
Levantaram-se todos, admirados.
– “Que merda é esta? À hora de almoço não vale”, protestou
o Arrojado.
– “Estão presos, já disse! Todos lá para fora!”, gritou de
novo o Póvoa.
– “Vamos a eles!”, incentivou o «inimigo» Candeias.
Saltaram todos dos bancos e atiraram-se aos do grupo.
Houve encontrões e passaram todos para fora da taberna.
Mais encontrões e alguns murros lá fora. Aiveca, ao ver
o Póvoa, já tinha concluído que era a sua companhia que
cercava aquela parte da aldeia onde estava a taberna. Os do
grupo do Póvoa tinham mauser e houve um que deu um tiro
de bala simulada, que era o que usavam, é claro.
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