É verdade que quando era miúdo e estava no Penedo sempre tivera medo da GNR. Via-os passar nos cerros, nos montados e pelo meio da aldeia. Os miúdos não tinham a experiência dos adultos mas imitavam-nos, olhavam os guardas em silêncio, procurando estar afastados o máximo. E na aldeia ouvia as conversas. Que o Zé Rolhas levou um tiro no pescoço porque andava a apanhar boletas no montado da D. Manuela, e agora não pode falar, que a Mariana Carrasqueirinha (1) ficou com um peito arrebentado, levou uma patada dum cavalo porque não queria trabalhar na monda, por causa do pouco dinheiro, que o Inácio do Rosário foi levado pela guarda para Beja e nunca mais ninguém o viu. Mas há uma dessas conversas que nunca mais lhe saíra da memória, nem às
gentes lá da terra. É que a GNR matou uma mulher em Baleizão que queria mais dinheiro na jorna, muitos do Penedo estavam lá e viram. Parece que tinham ido para substituir os que não quiseram trabalhar. Não se falou de outra coisa durante muito tempo e ainda se lembrava de ouvir cochichar a mãe e a avó dizendo que a mulher era comunista. E o seu avô, o mestre Salustiano, sapateiro da aldeia, acrescentava que o ti João, o outro avô da parte do pai, também era.
(1) Era a minha mãe. Chamavam-lhe “Carrasqueirinha” por ser muito miúda e magra. Esteve muito mal por causa daquela patada e lembro-me que me fartei de chorar. (NA)
Durante os anos que passara no Penedo tinha ficado, é claro, em casa dos pais da mãe. Os contactos com a família do pai eram escassos, mas sempre gostou do avô João. Recorda-se dele como um velhote simpático de cabelos todos brancos e que lhe dava rebuçados sempre que o encontrava na venda do Zé Bernardo quando ia fazer recados à mãe.
«As horas voaram, como voavam as aves nos céus, como corriam as árvores ao longo do caminho, e eu seguia mais tranquilo, com pensamentos bem diversos daqueles com que iniciara a viagem, agradava-me imenso aquela paisagem alegre. Quem me dera rebolar-me naquela erva fresca, deitar-me nela, contemplar o anil do céu e sonhar, sonhar, construir para o futuro doirado.
A carruagem enchera-se bastante mais, recebendo sempre novos passageiros em cada estação e apeadeiro. Novas malas e sacos ocupavam o corredor entre os assentos, à mistura com aqueles que não tinham lugar neles. Uma galinha espanejou as asas dentro de um cabaz, lançando no ar uma nuvem de poeira e de penas. Além do dono, que lhe deu uma palmada por cima da serapilheira que tapava o cabaz, uma mulher fez má cara e abanou-se com um lenço, um velho espirrou. Várias pessoas limpavam grossas bagas de suor dos rostos vermelhos da canícula. No entanto, ninguém protestava ou se lamentava, como se tudo aquilo, atropelos, mal-estar, suor e maus cheiros fossem o dia-a-dia daquela gente de terceira classe. E o comboio corria veloz, fogoso, tragando quilómetros e quilómetros, num deglutir ruidoso e monótono, assobiando de vez em quando como que a dizer deixem-me passar. Às vezes parava, arfando de cansaço, mas era apenas uma pausa no seu caminho. Para mim, apesar de mais animado pelas palavras do velhote, ainda
era para o incerto. As horas passaram, muitas, longas e ardentes.
Fui vendo as estações. Vi o nome duma que tinha fixado.
Finalmente chegara, era ali a estação. Levantei-me. O meu companheiro e consolador olhou-me interrogativamente.
– Então, já?
– Foi o nome desta terra que me deram.
– Passa bem, rapaz.
Desci. O comboio retomou a sua marcha e fiquei com os olhos quase chorosos. Apesar de todo o optimismo sentia a responsabilidade do passo, o seu alcance. Estava lançado numa aventura bem mais custosa do que todas as que lera até então nas revistas de quadradinhos, porque era eu que a vivia e não outro. As coisas parecem fáceis quando são os outros que as realizam, mas ali era eu, só, perante uma perspectiva incerta, inquietante. Custa sempre dar um passo incerto. Peguei na mala e saí da estação, perguntei a um empregado que estava à porta onde era o seminário. Era ali mesmo naquela rua, ao fundo.»
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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