Cabra-cega, por João Gaspar Carrasqueira (1)
Beja Santos
É um livro íntimo, com vários biombos, com a simulação de
artifícios para dificultar a perceção da realidade. Será que João Gaspar
Carrasqueira existe? E, a existir, foi conterrâneo de António Aiveca que deixou
estes papéis para publicar e já está na terra da verdade?
Faltava-nos esta peça na literatura da guerra da Guiné, uma
autobiografia camuflada, da infância até ao termo da comissão. Um menino
nascido em Lisboa e logo transferido para Penedo Gordo, não muito longe de
Beja. E regressado depois a Lisboa, vivia numa pobreza extrema, fez a instrução
primária num colégio de padres e daqui seguiu para o seminário. Aos vinte anos,
entra em discordância, é tempo de acabar com a comédia da vocação, e sai do
seminário. Regressa a Lisboa, para sobreviver trabalha como ajudante de fiel de
armazém e estuda. É assim que recebe uma convocatória para se apresentar em
Mafra, temo-lo como atirador de infantaria. Segue para a Guiné, é logo lançado
no mato, o relato não indica nem o tempo nem o lugar como se buscasse a
universalidade de todas as guerras. O capitão, comandante de companhia, é
gizado como um valdevinos, um frequentador de cabarés lisboetas; e o retrato
que o autor nos dá dos quatro alferes da companhia é singular, atrevo-me a
dizer único, aquelas quatro pessoas poderão ter existido na inocência, no
fanatismo, na pesporrência, na indiferença acompanhada de ignorância, quanto ao
modo de participar na guerra. O alegado António Aiveca ao fim de quatro meses é
ferido em combate, evacuado para o Hospital Militar Principal, transforma-se
numa reencarnação no comandante companhia, morto na improvidência de um
levantamento de mina. São tempos de estúrdia, somos envolvidos naquele terrível
compasso de espera de alguém que tem os tímpanos feridos e que escancara as
portas ao inferno dos estropiados que jazem num dos anexos do hospital. E dá-se
o regresso à Guiné, vai passar mais uns meses numa companhia de recrutamento
local, sai-lhe um portão de Balantas na rifa. E depois o regresso, numa
atmosfera de espessamento e de desencantos. Todos mudaram, ele não ficou para
trás, viveu a morte em vários espelhos coloridos e jogou à cabra-cega. Foi
demasiado, se o seminário o desencantou, as idas e vindas com a Guiné ao fundo
deixaram-no agrilhoado ao somatório das perdas.
Vale a pena abrir a mão de todo este longo itinerário que se
atribui a António Aiveca, segundo o presumível imaginário de João Gaspar
Carrasqueira.
Primeiro, o Alentejo, as raízes da família, mãe ceifeira e o pai
tratorista nos campos dos latifundiários, rasgando-os com aivecas, daí o nome
que ficou para a família. Passou a infância numa parte de casa em Campo de
Ourique. E depois temos um colégio de padres, um caseirão enorme, estamos então
no seminário, reza ao terço todos os dias antes do jantar, acompanha o diretor
na
visita às famílias ricas da terra. Passados cinco anos, é
transferido para um seminário maior, noviciado em Filosofia, temos aqui
descrições primorosas, há frases que ficaram gravadas ao ex-seminarista para
todo o sempre: “Quem não fizer penitência morrerá” ou “Na missa, quando no
altar se imola Jesus, não nos devemos julgar na terra, mas no céu entre os
espíritos celestes”. Pobreza e castidade, e obediência. O controlo é absoluto,
mal se põe a conversar mais longamente com alguém é logo advertido que não é
bom fazer amizades, há inconveniência nos afetos duradouros. Pede para sair,
entregam-lhe o papel da dispensa dos votos, vai viver com os pais em Lisboa, na
Calçada da Patriarcal, trabalha, estuda, descobre o cinema. Tem o 12º ano, é
hora de partir para Mafra. O autor dá-nos algumas águas-fortes para preparação
militar, dado transversal da obra são os diálogos das pessoas, conversas
sincopadas, ali à volta, nas fendas e interstícios é-nos permitido conhecer os
estados de alma, mas tudo com comedimento. Já é aspirante, é colocado numa
unidade e redige jornais de parede. Ainda foi a Lamego, a sua prestação não
agradou, é recambiado para o RI1, Amadora, é aqui que vai integrar uma
companhia, em breve todos saberão que o seu destino é a Guiné. Temos aqui um
dos momentos culminantes do livro, as conversas entre os aspirantes Aprígio,
Castro, Zé Pedro e Aiveca, é um bom registo de mentalidades. E somos inseridos
na vida noturna de Lisboa graças ao capitão Mendonça que tem garrafas com o seu
nome em diferentes bares.
Deliberadamente, não sabemos a data de partida no Ana Mafalda para
a Guiné, presume-se que estamos em 1967. Uma LDM leva-os através de um rio para
perto do destino. Sabemos que é um rio largo, que depois vai estreitar,
condensa floresta nas margens, com curvas e contracurvas, havia muita tensão,
mas nada aconteceu. E depois vão em coluna, após uma noite horrível, não se
sabe bem por onde nem para onde, e chegam ao destacamento, sabe-se que têm a
sede do batalhão a 30 quilómetros, há vários quartéis isolados. Correm rumores
de que os rebeldes se aproximam da região, fazem-se patrulhamentos, Aiveca
aprende os horrores daquele sol abrasador, vê horrorizado os soldados a mijar
nos cantis. Mendonça, que dava a imagem da pândega na vida noturna de Lisboa,
revela-se um traste, em positivo, trabalha para a folha de serviços. Sabemos
que há áreas onde se deslocam sem perigo, as Panhard seguem à frente.
Nomadizações, patrulhamentos, emboscadas. E a imagem de tabancas abandonadas, o
testemunho daquele momento da guerrilha em que se separaram as águas, uns
partiram para o mato profundo, outros aproximaram-se da tropa, ficaram em
quartéis ou em autodefesa. As relações entre Aiveca e Mendonça degradam-se. E
chegou a hora das grandes operações, entram em acampamentos, deitam fogo às
habitações. E a guerrilha apresenta-se, há fogo intenso, é preciso apoio aéreo.
Mendonça determina que vai referenciar um objetivo. É um dos momentos da obra
dignos de referência. Aiveca vai ficar sozinho depois de uns tiroteios, o seu
grupo debanda, vai descobrir que está sozinho. Tudo começa assim:
“Foi rastejando e, a certa altura, ouviu um silvo agudo no ar,
levantou a cabeça e numa fração de segundos viu uma granada de morteiro em
direção a si. Nem pensou, deu três voltas para o lado a rebolar. Ela enfiou-se
na terra mole no sítio onde tinha estado, viu de esguelha o seu rebentamento,
sentiu a terra que levantara cair-lhe no camuflado e ouviu o zumbido dos
estilhaços. Cabeça entre os braços, ficou agarrado ao chão. Nunca imaginara que
isso fosse possível, mesmo quando vira nos filmes não acreditara”. E os
guerrilheiros vão-se aproximando
(continua)
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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