segunda-feira, 22 de junho de 2015

«Os charlatães só podem iludir o zé-povinho. Mas há tanto
charlatão e tanto papalvo por aí... Há uma certa semelhança
entre eles e o “ápeiron” de Anaximandro: dizem tudo mas não
possuem nada. São superficiais, nunca baixaram à medula...
Só os que eu estimo baixaram lá. Só a estes deixei penetrar
no meu “eu” espiritual. É o meu “eu” que interessa, porque é a
minha essência, privada do fictício e do acessório... E depois da
minha deserção com quem posso contar? Comigo mesmo. Não
me refiro ao “eu” ostensivo, mas a um outro “eu” que encontrei
dentro de mim num momento de extrema debilidade... cidadela
tão profundamente oculta na selva da rotina quotidiana
que, até para nós, o seu caminho fica, muitas vezes, obstruído
ou esquecido. É lá – no meu “eu” espiritual – que não pode
entrar nenhum estranho; é lá que se encontra – que eu encontro
– um lugar seguro. Já me refugiei lá tantas vezes... Quando me
vir perseguido hei-de refugiar-me lá, baterei a porta na cara
dos perseguidores... Poderão bater, escoicinhar... a “mim” é que
não poderão chegar. Só quem viveu o dilema poderá saber o que
ele é.
Um dilema vivido é uma espada de dois gumes, presa sobre
a cabeça por um fio muito ténue. E ela há-de cair, tem de cair...»
Tinha dezoito anos quando escrevera isto. Estava mesmo mal na altura.

Um dia, depois do almoço, esteve à conversa com o Gonçalves.
– “Falaste-me outro dia do livro que o padre Zé Maria te
emprestou. Mas olha que há na biblioteca outros livros mais
interessantes”, disse-lhe ele.
– “Claro que deve haver, eu sei. Mas devem estar na secção
que chamam «Inferno».”
– “ «Inferno» o caraças. Eles não querem é que a gente
os leia. Olha, eu vou lá dar um salto para ver se há algum que
me interesse. Queres vir comigo?”
– “É pá, mas eu não sei se o padre Zé Maria nos deixa
ir ao «Inferno». Sabes que só pode ser com autorização do
Director.”
– “O padre Zé Maria foi a uma consulta e eu sei que
ele deixa a biblioteca aberta quando vai ao médico. E agora
depois de almoço não está lá ninguém. Anda lá.”
Foram. De facto a biblioteca não tinha ninguém. Mas
tiveram azar. Quando estavam em frente das prateleiras
que tinham um letreiro “Só com autorização do Director”
alguém entrou. Era o próprio Director.
– “Vocês já sabem que só podem entrar aqui quando
está cá o padre Zé Maria.”
– “Está bem”, e saíram.
– “Estamos feitos”, disse o Gonçalves.
– “Este gajo anda sempre com o olho em cima de mim,
era de esperar.”
– “Oh, e em mim também.”
– “Não foi boa ideia ir lá.”
– “Que se lixe. Não me aquece nem arrefece.”
Admirava o Gonçalves por este seu à-vontade.
No dia seguinte o Director chamou-o.
– “Tu e o Gonçalves estavam outro dia muito interessados
em ver os livros do «Inferno».”
– “Era só para ver que livros lá estavam. Mas nem deu
para ver.”
– “Aquela secção chama-se «Inferno» porque tem
obras que vocês não devem ler sem estar bem preparados.
São de escritores não aconselháveis, alguns ateus e imorais,
outros antissociais, que podem ter má influência sobre a
vossa formação. Só quando fordes ordenados sacerdotes é
que podereis ler aquilo, e é para ganhardes argumentos para
os combater e esclarecer as pessoas.”
Não adiantava argumentar contra esta imposição. Era o
habitual amarfanhar da vontade individual sob pretexto do
que achavam ser o melhor. Aliás, ele mudou logo de assunto.
– “Tenho reparado que procuras afastar-te dos outros
filósofos. Isso não é bom, não te ajuda a criar em ti o espírito
de família que nos caracteriza.”
– “Não é uma questão de me afastar. O que eu acho
é que a maioria não tem conversas que me interessem, são
todas iguais e copiadas uns dos outros, aborrecem-me as
repetições. Prefiro não os ouvir.”
– “Isso é presunção da tua parte, é pecado. Devemos julgar
os outros melhor do que nós. E é uma falta de caridade
para com os nossos irmãos em Cristo. Como podes amar a
Deus que não vês se não amas o próximo que vês?”
– “Mas não se trata de amar ou deixar de amar. Eu não
odeio ninguém, somente não me agrada a companhia deles.
Não me sinto bem com eles.”
Atirou a farpa:
– “Mas vejo que te sentes bem com o Gonçalves. As
amizades particulares não são boas porque desequilibram os
afectos, que devem estar virados para Deus. Procurar estar só
com ele não é bom, pode levar ao pecado.” E olhou-o com ar
de inquiridor. “Não tens maus pensamentos com ele? Nunca
se acariciaram um ao outro?”
Ficou vermelho de raiva, sentiu-se espezinhado e explodiu
por isso:
– “Quem está a ter maus pensamentos é o senhor. O que
eu faço é o que eu sei que muitos fazem, mas não dizem porque
são hipócritas. Masturbam-se debaixo dos lençóis e nas
casas-de-banho, que eu bem os oiço. Eu também o faço, mas
digo-o aqui, não me interessa.”
O padre ficou sério.
– “Tens de reprimir os teus desejos. Usa a mortificação e
vai para a igreja rezar.”
Não quis ouvir mais. Já não estava para aquilo. Sem
pedir licença, levantou-se e saiu.
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