Foram promovidos a alferes antes do embarque. Ia haver
também aquilo a que chamaram cerimónia de despedida, a
que se seguiria uma missa na parada.
Aiveca não tinha vontade nenhuma de assistir à missa
quando soube que ia haver. Com muito menos ficou quando
o capitão, que os tinha reunido para falar do que havia, acrescentou
que era o major-capelão Euclides que ia celebrar a
missa.
– “Que filho da puta”, sussurrou entre dentes.
Os outros alferes olharam para ele.
– “Disse alguma coisa, Aiveca?”, perguntou o capitão.
Ainda bem que não o ouvira.
– “Meu capitão, estava a dizer que não vou à missa”, respondeu.
Agora eram todos espantados, inclusive o capitão. Viu
que tinha de dar uma explicação, mas não ia dar a verdadeira.
- “É que eu não sou católico”, foi a razão mais rápida que
encontrou.
Admiração geral. O capitão ficou hesitante, parecia
embuchado, sem palavras.
– “Tá bem, se é assim…”, lá acabou por dizer, mas pareceu
contrariado por não ter argumentos.
Ainda se lembrava da conversa parva do padre Euclides
quando o encontrara no Cais do Sodré. Era uma besta, não
gostava nada dele. Já sabia que ele e o padre Gama tinham
ido para capelães-militares, o Gonçalves dissera-lhe quando
estava no RI1, mas estava longe de ver aquele gajo ali. Se
fosse o Gama era diferente. Ele fora o seu professor da instrução
primária no colégio dos padres, dera-lhe uma ou outra
palmatoada, é verdade, mas fora sempre um bom amigo dos
miúdos. Se fosse ele até iria à missa e gostaria de falar com ele
no final.
Meteu-se no bar de oficiais durante a missa mas não se
livrou de a ouvir e ao sermão do Euclides, porque os altifalantes
gritavam para todo o lado. Nada de novidade, já sabia
que daquele não sairia outra coisa. Fez uma bela dissertação
sobre o amor à pátria, a defesa do património nacional, etc.
Esqueceu-se é de falar contra os comunistas.
Passado algum tempo depois de tudo terminar apareceram
os outros alferes. O Zé Pedro olhou para o copo de
Aiveca e disse ao barista para lhe trazer também um whisky.
– “Então, gostaram da missa?”, perguntou Aiveca.
O Castro e o Zé Pedro disseram que sim, mas sem
grande ênfase. Estão com receio de ferir as minhas crenças,
pensou com um sorriso irónico. Ficaram silenciosos depois.
– “Olha lá”, decidiu-se o Aprígio, que não dissera que
sim nem que não, “afinal qual é a tua religião?”
– “Estava a ver que não me perguntavam.” Riu-se. “Eu
vou dizer. Mas não vão bufar nada ao capitão, tá bem?”.
Todos abanaram a cabeça e disseram seriamente que
nem pensar, pá.
– “Ó meus amigos, eu tenho de ser católico, apostólico,
romano. Baptizaram-me quando era bebé, ainda não sabia
dizer nem que sim nem que não, só me deu para chorar, é o
que dizem os meus pais. Depois, quando era puto e andava
num colégio de padres, fiz a comunhão solene e fui crismado.
Se dissesse que não queria corriam comigo, mas nem pensar
pois estava lá de borla e os meus pais não me podiam pôr
noutra escola. Mas, olhem, na altura até achei piada àquilo,
foi giro. É isto. Como vêem sou oficialmente católico desde a
nascença, como a maioria em Portugal.”
Ficaram perplexos. Aiveca apercebeu-se que esperavam
uma novidade, algo que desse para fazerem mais perguntas.
O Aprígio, sobretudo, pareceu desiludido. Só o Zé Pedro
reagiu.
– “Ó Aiveca, mas, então, porque não quiseste ir à missa?”
– “Não quis porque já estou farto de missas, é isso.”
Não quis dizer que não gostava do major-capelão para
não ter que explicar porquê. Nem porque estava farto. Fizera
contas e chegara à conclusão que assistira a mais de 4.200
missas, contando as do seminário e as do colégio dos padres.
Nunca lhes dissera que tinha estado no seminário e não era
agora que ia dizer.
– “É a tua maneira de ver”, continuou o Zé Pedro, ”mas
eu acho que esta missa foi importante para malta que vai para
a guerra. Deu-nos mais calma e confiança na ajuda de Deus”.
– “Talvez, no geral, uma missa tenha esse objectivo, tá
bem, pode ser que sim. Mas o desta não foi este. Foi antes
um apelo à guerra, bem patente no sermão do major-capelão,
nada diferente do que disse o comandante do Regimento na
cerimónia da despedida nem do que dizem os membros do
Governo.”
– “Isso é verdade, é todos o mesmo”, disse o Aprígio. “E
olhem, se eu não fosse para a guerra é que era uma grande
ajuda de Deus. Podem ter a certeza que assim é que ficaria
bestialmente calmo.”
– “Ó Aprígio, estou a ver que tu e o Aiveca não estão a
entender.”
– “Diga lá, doutor Castro.”
Aiveca sorriu sem o hostilizar, embora imaginasse que ia
sair dali palermice.
– “Não gozes. Os discursos de Salazar visam mentalizar
o povo para a necessidade de fazer a guerra e o que disse
o comandante do Regimento e o sermão do padre tiveram
como objectivo motivar os soldados para se empenharem
nela. Acho importante isso.”
– “O coronel e o Salazar percebo, é o papel deles. O
padre é que não tinha nada que se meter nisso, fazer pandã
com eles, não é esse o papel dele. Era melhor que glosasse
aquela do Gilbert Bécaud que tu conheces lá de Lamego.”
Quis ser mau e cantou: “Et maintenant que vais-je faire, De
tout ce temps que sera ma vie, De tous ces gens qui m’indiffèrent.”
O Aprígio e o Zé Pedro riam-se, o Castro estava sério.
– “Disto é que ele devia falar”, disse Aiveca acabando de
cantar, “mas estou a ver que não percebem nada de francês,
nem tu, Castro. Ouvias sem saber o que o Bécaud dizia. Só
fazia que saltasses da cama.”
O Castro estava vermelho e parecia querer explodir. O
capitão salvou a situação. Tinha entrado no bar e chegara-se
à mesa deles.
– “Estou a ver que estão contentes, até cantam. Tá bom.”
http://seminarioeguerracolonial.blogspot.com/
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